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Em algum lugar da memória



SUIÇO E NATA

Perdoem-me, mas o texto hoje é meio morno, choroso, melancólico. São coisas brotadas da memória recente, mas já num pleito de saudade. Tenho feito muitas observações durante a minha vida. Conheci muitas pessoas, suas aptidões, seus relacionamentos, seus sucessos, seus hábitos, nas mais diversas atividades humanas. O meu objetivo aqui é distinguir neste período todo, diversos acontecimentos desta Araraquara, alguns já esquecidos, outros de saudosa memória e outros ainda que persistem, mas todos eles verdadeiros ícones na história desta terra de Pedro José.

O trecho da Avenida São Paulo, entre as Ruas 9 de Julho e São Bento é um dos que se poderia chamar de amontoado desses ícones. Do lado direito de quem sobe em direção à Matriz de São Bento, na esquina, havia a Casa Cruzeiro do Lino Stuchi. O Escritório Ramalho; a Casa Rodella, de Pedro Rodella & Filhos, com Matriz em São Paulo, na Rua Florêncio de Abreu, 109, grande especializada na fabricação e consertos de sanfonas semitonadas ou simples, onde também,”à preços módicos”,vendia-se e consertava-se: violões, Bandolins, Flautas, Clarinetas, Concertinas, Realejos,”Harmoniuns de egreja”, Cavaquinhos, além de um completo”sortimento”de papel fino e livrinhos para música, cordas especiais napolitanas e palhetas para clarinetas e Requintas; mais tarde a Livraria Rodella, do Pedrinho. E finalmente, na esquina de cima, com a Rua São Bento, o prédio que abrigou, bem outrora, o Banco de Araraquara e mais modernamente o Banco doCommércioe Indústria de São Paulo, onde trabalhava o amigo Joaquim Bento Santoro, pai doFrancisquinho(Jarinna! Faccio lei pullare como no sirilipo!(?) Ninguém entendeu: e é melhor não entender: porque erabrincadeira dos nossos pais, isto é, de gente grande, à época.

Do outro lado, na mesma esquina com a Rua Dois, um belíssimo prédio em estilo clássico cuja ultima utilização foi como agência da Caixa Econômica Estadual; depois vinha a sorveteria “Nosso Sorvete”, a Dental São Paulo, a Loja do Natale Solci o Foto Ultramare, a “Vamos Ler” do Oaibi João, o tradicional “It Salão”do Toninho Nigro, a Casa Levy, deste exemplar cidadão José Planas, cuja amizade tenho orgulhosamente mantido com seu filho José Jaime, meu amigo e irmão. O”Araraquara Repórter” – “A Voz da Esplanada” e a Favorita Loterias dos saudosos amigos, Mariottini, pai e filho.

Perdoem-me e me lembrem se esqueço de mais alguém, o que sou obrigado a atribuir já aos efeitos da idade.

AH! Ia me esquecendo da Banca do “seu” Júlio, comunista histórico por puro idealismo, diferente em tudo, desculpem-me dizer, dos cor-de-rosa atuais.

Era a Araraquara, dos Refrigerantes Aluá, Cotuba, Prins Cola, dos Sorvex Ararex; das Massas Martini e Carmona; das Lojas do Barulho, Bazar 77, Casa Nazarian; onde “terra é sempre terra”, na sabedoria de Valeriano Alvarez. Da Mercearia Lauand, do”…te-re-te-tê, Maneco André”. Do Pedro Sanches Alcarás sua representada a Cesta de Natal Amaral e seu gigante. Do Erontex da sorte, da Loja Ducal e dezenas de tantas outras que terei oportunidade de focar pois todas estão em algum lugar da minha memória.

Do Posto Rebuglio e o diálogo certa vez mantido entre a Nina e um costumeiro freguês no tempo da guerra, com forte sotaque italiano:

“-Nina,tem cazzolina?

“-Não!”

“-Tem cazzogênio?”

“-Também não!

“-Ma!” que cazzo tienne?”

… Respiro forte e me dou conta que nunca mais vou tomar o meu sorvete de suíço e nata, ou o de uvaia, ou o de limão ou o de ameixa, indiscutivelmente os mais gostosos que saboreei. Isto porque recebi com muita tristeza a notícia do falecimento do meu estimado amigo Eichim Uesato.

Eram dois irmãos o Pedro desaparecido há anos numa viagem a Goiás e agora o Eichim. Sua parte na história de Araraquara foi distinguí-la com as delícias feitas por eles na sorveteria “Nosso Sorvete”. Aliás conheci também muitas pessoas que quando vinham a Araraquara não deixavam de visitar o Eichim Uesato, aproveitando também para levar algumas garrafas da Mimosa do Ciomino (Dizem que o Ignácio, por exemplo, faz isso até hoje).

Com muito trabalho e humildade, tanto souberam participar da vida desta cidade que se tornaram ícones e se inseriam na história boa de Araraquara.

A eles, cujas histórias estão muito bem guardadas em local de destaque da nossa memória,o nosso reconhecido agradecimento.

Em algum lugar da memória



” JUÓ BANANERE”

O trabalho realizado por esta notável figura que seria reconhecida mundialmente não só pela arquitetura, mas pela qualidade e importância da obra literária realizada ao descrever o dia a dia da população brasileira de São Paulo, numa época de integração do imigrante italiano com a população natural e vice e versa, traduz-se num verdadeiro monumento social e filológico, e certamente, eu como tantos, desejaria lhe dedicar um livro inteiro.

Em Araraquara destaco os estudos feitos em torno da pessoa e da obra de Marcondes Machado, pelos arquitetos René Nusdeu e Francisco José Santoro, que embora não sejam números e sejam absolutamente divisíveis dentre milhares de amigos, são,… familiarmente falando,”primos entre si”!

ALEXANDRE RIBEIRO MARCONDES MACHADO, nasceu a 11 de abril de 1892, na cidade de Pindamonhangaba, Estado de São Paulo, de uma família tradicional do Vale do Paraíba. Não era descendente de italianos como lhe atribuiu Lemmo Lemmi, o renomado cronista e caricaturista Voltolino. Na meninice viveu em Araraquara e Campinas, onde freqüentou o ginásio, indo depois cursar a Escola Politécnica de São Paulo, que se localizava na Rua Marquês de Três Rios, no final do Bom Retiro, um bairro popular habitado quase que totalmente por imigrantes italianos.

Sua mãe ficara viúva e Alexandre viu-se obrigado a trabalhar para ajudá-la na criação de mais oito irmãos. Inicia-se no jornalismo como revisor, escrevendo, posteriormente artigos de encomenda para alguns jornais e até mesmo para o “O Estado de São Paulo”, tradicional jornal paulista.

É neste momento que Oswald de Andrade, então dirigindo “O Pirralho”, revista criada em 1911, destinada sobretudo à camada mais abastada da população, chama o talentoso jovem para a sua equipe, e assim este estudante de engenharia aproveita as aulas maçantes a que é obrigado a assistir para escrever suas crônicas semanais.

Fascinado por tudo o que via acontecer nas ruas daquele bairro predominantemente italiano e pelo linguajar do povo, Alexandre Marcondes Machado, se apresenta como”Juó Bananere“;boeta, barbieri e giurlanista.

Em 1915, parodiando Dante, publica a primeira edição em 44 páginas de”A Divina Increnca“,”um livro di prupaganda da literatura nazionale“.A obra é escrita em”Paulistaliano“,isto é a língua falada pelos italianos doBuó Ritiro, (Bom Retiro, bairro paulistano habitado predominantemente por imigrantes italianos). Tenho o orgulho em possuir um raríssimo exemplar desta obra em minha biblioteca

Em Araraquara, dentre outros encargos, Alexandre Marcondes Machado, o”Juó Bananére“,é convocado para urbanizar a área central da cidade, no quadrilátero formado pela Rua São Bento, Av. Portugal, Rua 9 de Julho e Av. Itália, (hoje Duque de Caxias); leva também a incumbência de projetar a nova sede do Clube Araraquarense.

Seus projetos realizados em Araraquara são realmente majestosos para a época. O Clube, o Hotel Municipal; as praças centrais, inclusive com detalhes do pavimento confeccionado em”petit pavê“, pelas mãos habilidosas de renomados artistas portugueses, – sem dúvida, os melhores da época.

A praça central:”A Explanada das Rosas“, defronte aos prédios da antiga sede do Clube e do saudosoTheatroMunicipal, era tão rica em detalhes técnicos e artísticos que apesar de o prédio do Clube ter enormes porões e janelas ao rês do chão, nunca neles havia entrado água da chuva. Passou a infiltrar quando acabaram com a praça antiga.

Mas,… Araraquara não é diferente de tantas outras cidades deste nosso Brasil, onde não se tem o menor respeito pelos monumentos históricos. Na época do Prefeito Rubens Cruz, resolveu-se fazer uma praçaque fosse combinada com a arquitetura do prédio da Prefeitura. E aí,… bem e aí, destruíram por completo a “Explanada das Rosas“, removeram a obra de arte composta pelospetits pavês, substituindo-os por ladrilhos hidráulicos, tiraram os postes de ferro, etc. Mexeram tanto que á partir daí, sim ! Conseguiraminfiltrar água da chuva nas fundações do Clube Araraquarense.

Nada anormal para quem: derrubou o Teatro; mandou o Bento de Abreu lá pra Fonte Luminosa; descaracterizou o prédio da Associação Comercial; derrubou a Capela do Asilo, (vai ter que acertar contas com São Francisco, ainda bem que ele é mansinho) e tantos outros logradouros, como recentemente a Rua Voluntários da Pátria, a quem agora tentam impingir o afrescalhado”Boulevar dos Oitis“.

Para finalizar, ouvi dizer que vão transferir a Festa do Carmo, a mais tradicional festa popular da cidade para o CEAR. Local, aliás, que será eternamente conhecido pelo nome “Pavilhão da FACIRA”.

Em algum lugar da memória



” JUÓ BANANERE”

O trabalho realizado por esta notável figura que seria reconhecida mundialmente não só pela arquitetura, mas pela qualidade e importância da obra literária realizada ao descrever o dia a dia da população brasileira de São Paulo, numa época de integração do imigrante italiano com a população natural e vice e versa, traduz-se num verdadeiro monumento social e filológico, e certamente, eu como tantos, desejaria lhe dedicar um livro inteiro.

Em Araraquara destaco os estudos feitos em torno da pessoa e da obra de Marcondes Machado, pelos arquitetos René Nusdeu e Francisco José Santoro, que embora não sejam números e sejam absolutamente divisíveis dentre milhares de amigos, são,… familiarmente falando,”primos entre si”!

ALEXANDRE RIBEIRO MARCONDES MACHADO, nasceu a 11 de abril de 1892, na cidade de Pindamonhangaba, Estado de São Paulo, de uma família tradicional do Vale do Paraíba. Não era descendente de italianos como lhe atribuiu Lemmo Lemmi, o renomado cronista e caricaturista Voltolino. Na meninice viveu em Araraquara e Campinas, onde freqüentou o ginásio, indo depois cursar a Escola Politécnica de São Paulo, que se localizava na Rua Marquês de Três Rios, no final do Bom Retiro, um bairro popular habitado quase que totalmente por imigrantes italianos.

Sua mãe ficara viúva e Alexandre viu-se obrigado a trabalhar para ajudá-la na criação de mais oito irmãos. Inicia-se no jornalismo como revisor, escrevendo, posteriormente artigos de encomenda para alguns jornais e até mesmo para o “O Estado de São Paulo”, tradicional jornal paulista.

É neste momento que Oswald de Andrade, então dirigindo “O Pirralho”, revista criada em 1911, destinada sobretudo à camada mais abastada da população, chama o talentoso jovem para a sua equipe, e assim este estudante de engenharia aproveita as aulas maçantes a que é obrigado a assistir para escrever suas crônicas semanais.

Fascinado por tudo o que via acontecer nas ruas daquele bairro predominantemente italiano e pelo linguajar do povo, Alexandre Marcondes Machado, se apresenta como”Juó Bananere“;boeta, barbieri e giurlanista.

Em 1915, parodiando Dante, publica a primeira edição em 44 páginas de”A Divina Increnca“,”um livro di prupaganda da literatura nazionale“.A obra é escrita em”Paulistaliano“,isto é a língua falada pelos italianos doBuó Ritiro, (Bom Retiro, bairro paulistano habitado predominantemente por imigrantes italianos). Tenho o orgulho em possuir um raríssimo exemplar desta obra em minha biblioteca

Em Araraquara, dentre outros encargos, Alexandre Marcondes Machado, o”Juó Bananére“,é convocado para urbanizar a área central da cidade, no quadrilátero formado pela Rua São Bento, Av. Portugal, Rua 9 de Julho e Av. Itália, (hoje Duque de Caxias); leva também a incumbência de projetar a nova sede do Clube Araraquarense.

Seus projetos realizados em Araraquara são realmente majestosos para a época. O Clube, o Hotel Municipal; as praças centrais, inclusive com detalhes do pavimento confeccionado em”petit pavê“, pelas mãos habilidosas de renomados artistas portugueses, – sem dúvida, os melhores da época.

A praça central:”A Explanada das Rosas“, defronte aos prédios da antiga sede do Clube e do saudosoTheatroMunicipal, era tão rica em detalhes técnicos e artísticos que apesar de o prédio do Clube ter enormes porões e janelas ao rês do chão, nunca neles havia entrado água da chuva. Passou a infiltrar quando acabaram com a praça antiga.

Mas,… Araraquara não é diferente de tantas outras cidades deste nosso Brasil, onde não se tem o menor respeito pelos monumentos históricos. Na época do Prefeito Rubens Cruz, resolveu-se fazer uma praçaque fosse combinada com a arquitetura do prédio da Prefeitura. E aí,… bem e aí, destruíram por completo a “Explanada das Rosas“, removeram a obra de arte composta pelospetits pavês, substituindo-os por ladrilhos hidráulicos, tiraram os postes de ferro, etc. Mexeram tanto que á partir daí, sim ! Conseguiraminfiltrar água da chuva nas fundações do Clube Araraquarense.

Nada anormal para quem: derrubou o Teatro; mandou o Bento de Abreu lá pra Fonte Luminosa; descaracterizou o prédio da Associação Comercial; derrubou a Capela do Asilo, (vai ter que acertar contas com São Francisco, ainda bem que ele é mansinho) e tantos outros logradouros, como recentemente a Rua Voluntários da Pátria, a quem agora tentam impingir o afrescalhado”Boulevar dos Oitis“.

Para finalizar, ouvi dizer que vão transferir a Festa do Carmo, a mais tradicional festa popular da cidade para o CEAR. Local, aliás, que será eternamente conhecido pelo nome “Pavilhão da FACIRA”.

Em algum lugar da memória



Quem estamos homenageando?

Falar coisas engraçadas não é privilégio de ninguém; todos nós falamos. Existem erros que, na realidade, são mais vícios do que erros. Eu, por exemplo, por diversos anos me referia ao Beatle como “John Lemon” e à cápsula americana “Gemini” como “Genini”. Cheguei ao cúmulo de responder “be”; “be; “be”, para justificar a necessidade de aulas particulares, quando algumas lindas coleguinhas voluntárias, me perguntaram se eu sabia as formas do verbo “to be” (be, was, been), coisas de um estudante do IEBA, na puberdade, há 45 anos mais ou menos. Esquece.

Mas já que o assunto da semana é a decisão dos vereadores, em algum lugar de minha memória estão registrados os famosos espetáculos que a nossa Câmara já nos proporcionou. Não adianta ficar bravo, querer tirar satisfações, justificar o injustificável; eu comento fatos que ocorreram, que fazem parte da história, que estão nos anais e que não podem ser modificados. Mas o fato é que, naquela época em que a televisão ainda não havia chegado em Araraquara, as sessões da Câmara Municipal se rivalizavam com os programas cômicos da Rádio Cultura, dentre eles o famoso: “A Cantina do Gennaro”, com a turma do Nicolau Guzzardi, o Totó … Não adianta melindres, é História!

Pergunte aos mais velhos.

Sempre comento que é preciso ter muito cuidado quando se pensa em homenagear alguém. Prefiro não comentar, pois tenho as minhas convicções e devo confessar que, infelizmente, vi mais gente sem qualquer merecimento receber homenagens do que aqueles que realmente as mereceram. Sei lá, vale tudo, principalmente o interesse.

Ocorreu que um dia, estando eu fazendo reportagem sobre uma sessão da Câmara Municipal de Araraquara, esta resolveu homenagear o pai de um dos vereadores, recentemente falecido à época.

Inúmeros vereadores fizeram inscrição para se manifestar sobre a vida do homenageado na Ordem do Dia. Todos queriam homenagear o “progenitor” do Vereador Fulano. Um dos oradores, um dos mais famosos, chamou ainda mais as atenções do combatível Vereador Waldemar de Santi. A coisa ia mais ou menos assim; se não com estas exatas palavras, mas com este conteúdo:

“- Estamos aqui reunidos para homenagear o progenitor do Vereador Fulano…” “ –

Porque o progenitor do vereador Fulano, por muitos anos militou nesta casa…”

“ – Sr. Presidente, pela ordem!” Interrompendo o orador na tribuna.

“- Pela ordem concedo a palavra ao vereador Waldemar de Santi”.

“ – Sr. Presidente, por favor; a quem estamos homenageando?

“ – Ora, Vereador De Santi, estamos homenageando o pai do vereador Fulano”, respondeu o Presidente.

E continua o orador: “- Porque o progenitor do Vereador Fulano…”

“- Senhor presidente, pela ordem”.

Novamente De Santi, com ligeiro fastio.

“- Senhor Presidente, eu perguntei quem nós estamos homenageando”.

“- Já respondi, vereador De Santi; é o pai do Vereador Fulano”! Respondeu o Presidente.

E retorna o orador: “- Então como eu ia dizendo, o progenitor do Vereador Fulano,…

“- Senhor presidente, pela ordem”. Novamente Waldemar de Santi. “Pelo amor de Deus, senhor Presidente, quem nós estamos homenageando o avô ou o pai”?

“– Vereador de Santi: como todos sabem, nós estamos homenageando o pai do Vereador Fulano”!

“- Ora, Senhor Presidente, então é o GENITOR do Vereador Fulano, e não o PROGENITOR. “Progenitor” é o avô dele!

Dizem que o orador até tentou arriscar afirmando que estava certo em utilizar a palavra “progenitor”, deixando escapar que quem havia redigido o discurso era a sua esposa, professora de português.

“- Pelo amor de Deus, Senhor Presidente”!

Encerrou o De Santi. “Pelo amor de Deus!”

Consultado, Mestre Aurélio in Dicionário Básico da Língua Portuguesa, ás fls. 531, deu razão a De Santi: Progenitor: (ô) S.M. 1. Aquele que procria antes do pai; avô, ascendente 2. V. pai.

Em algum lugar da memória



A maior parte da população é de gente de pouca ou nenhuma moral

Nomeado por decreto de sua majestade Don João VI, datado de 20 de abril de 1.818, o Padre Francisco Manuel Malachias, foi o primeiro vigário de São Bento de Araraquara. Mesmo antes de ser nomeado ele já oficiava os atos religiosos por aqui registrando-os conforme eu afirmei numa simples brochura, pois não havia ainda o “Livro Tombo”.

Mas nos primórdios da Vila foram muitos os problemas com os vigários. O Padre Malachias foi transferido em 1.831, sendo sucedido pelo Padre Francisco Metelo Homem, que também foi vereador. Este veio a falecer dez anos depois e ai começaram os problemas.

Sem o pastor espiritual as ovelhas de Araraquara começaram a ficar inquietas em seu redil e vendo a volta dos problemas que justificaram os pedidos para a instalação da Freguesia, começaram a pressionar os vereadores que enviaram um requerimento ao Presidente da Província pedindo que: “…por não haver outro sacerdote, passava a convidar um para substituir semelhante falta, enquanto Sua Excelência Reverendíssima, a quem nesta data se oficiou, não prover esta matriz, e sendo necessária alguma quantia para gratificar-se o convidado pela Câmara,…”(sic)

Para “…socorrer as almas destes habitantes”, a Câmara convidou o vigário da Freguesia mais próxima, a de São João do Rio Claro, distante mais de dezoito léguas e aconteceu que, certa vez chamado para atender um enfermo, este Padre mesmo andando dias e noite já o achou sepultado, sendo pois urgente a nomeação.

Designou-se então o padre Joaquin Soares Ferreira, exonerado pelo Bispo, menos de três anos depois, em 3 de dezembro de 1844.

Novamente o mesmo problema; sem ovelheiro o rebanho de Araraquara.

Quando havia necessidade de um sacerdote, se o paciente tivesse posses, financiava a vinda de um deles das freguesias vizinhas. O fato é que nenhum queria realizar de ofício o pastoreio em Araraquara.

Diante dessas dificuldades e dos insistentes pedidos das autoridades locais, o Bispo de São Paulo, D. Manoel, endereçou um ofício ao Delegado da Vila de Araraquara afirmando que mandara intimar quatro sacerdotes para suceder o padre Ferreira, mas que nenhum deles aceitara o cargo, devido ao boato de que “…a maior parte da população era de gente de pouca ou nenhuma moral, e pelo pouco ou nenhum respeito com que tratava os párocos.” (sic). Mas disse que se aparecesse alguém por aqui, sacerdote reconhecido e que quisesse aqui ficar, estava autorizado.

Ora, isto foi o bastante para ferir os brios dos locais que imediatamente se movimentaram em defesa deste rebanho. Foram procurar os vigários anteriores para obter os seus depoimentos a fim de contestar esta boataria. Para que fosse conhecido “…de que lado existe a inocência e a calúnia, a ponto de tal de servirem-se de nos caluniarem de irreligiosos e imorais e desrespeitadores dos Reverendíssimos vigários que aqui tem paroquiado”. (sic).

Padre Joaquim Soares Ferreira, radicado na época na capela de Nossa Senhora das Brotas, (que se pronuncia “Brôtas” e não “Brótas”, como dizem até mesmo os brotenses), mandou ofício jurando “in fide Sacerdotes”, dizendo que nos 22 meses que pastoreou em Araraquara, encontrou nos paroquianos “fervorosos nos atos do culto, e a maior adesão à religião”. E que, nas festas que promovera, “nunca se negaram proventos, nem para os reparos na Igreja”, e se faltasse algum paramento, eles mandavam buscar aonde houvesse”. (sic)

Também oficiou o padre de Constituição, (hoje, Piracicaba), José Maria de Oliveira. Este não chegou a ser pároco em Araraquara. Com a morte do padre Metelo havia sido convidado, mas não pudera aceitar, afirmando que: “…as pessoas de Araraquara, em especial as mais gradas, eram sim, dotados de sentimentos morais e religiosos e amigas do culto divino tratando com respeito a párocos e sacerdotes esforçando-se para não ficarem privadas do “pasto” (?) espiritual “. (sic)

Depois de inúmeras idas e vindas, acusações, defesas, convites e recusas, finalmente, nomeou-se o quarto vigário para Araraquara, o Padre João Hygino da Silva que pastoreou de setembro de 1.844 a maio de 1.845.

Um detalhe hilário. Em primeiro de janeiro de 1.835, a freguesia recebeu a visita do Padre Joaquim Duarte Novais, (o Padre Duarte, conhecido nestas plagas), á época vigário da vara de Itú, na função de visitador ordinário de várias vilas e freguesias por ordem do Sr. Bispo. Em suas determinações dentro do seu longo relatório uma é interessante e até engraçada. Vamos á ela para terminar por hoje: “…Prohibo totalmente que se conserve na banqueta do altar mor huma cabeça preta sem braços com o título de N. S. Aparecida”.

Minha nossa!

EM ALGUM LUGAR DA MEMÓRIA



A FREGUESIA DE SÃO BENTO DE ARARAQUARA

Domingo passado, ao término da missa das 19:30h., ouvi o Padre Marcelo informar que estava iniciando um trabalho para resgatar a memória da Matriz de São Bento. Ora, um prato cheio para o autor destas linhas!!! Não só pelo fato de eu ser um apaixonado pela história, mas principalmente porque, nos últimos sessenta e dois anos, freqüento este Templo com toda a Família, principalmente os Romio, que tinham a sua sede no conhecidíssimo “Armazém do BeppeFumo”, isto é, “Armazem de Secos e Molhados de José Romio” (Romio, Giuseppe Francesco), na Avenida Sete e Setembro, quase na esquina da Rua 9 de Julho.

Além do mais, iniciando a minha carreira para ser Papa, como confidenciei à Dona Julie Villac, diretora do Colégio Progresso (e esta será uma outra história), fui “coroinha” na Matriz, aos cinco anos, idade limite, como me admitiu o Padre Orlado. Nossa! Isto foi há cinqüenta e sete anos atrás! O que merece a falecida trema nos “cinqüenta”.

Claro que eu não poderia ficar de fora nessa e vou arriscar alguns resultados sobre a nossa primeira Igreja. E assim, já no domingo mesmo separei as fotos daquele saudoso tempo de infância, tirei cópias na segunda e fui garbosamente entregá-las na Secretaria do Templo, como se estivesse entregando a maior das homenagens. Pode parecer curioso, mas para mim é!

Mas só isso? Não! E a história? E os créditos para justificar as fotos? Aqui vai, desde a idéia inicial:

Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, caixa nº 26: “Dizem os moradores dos Campos de Araraquara, freguesia de Piracicaba, comarca de Itu, que têm a infelicidade de estarem privados dos socorros espirituais em razão da grande e difícil distância da igreja matriz, entre a qual e o mais vizinho dos suplicantes, além de 2 léguas, huma mata de 8 léguas na maior parte despovoada em 2 rios de canoa, uma serra íngreme e geralmente mau caminho, seguindo-se os outros moradores espalhados na extensão de mais de 10 léguas, o que os obriga a não ouvirem (… provavelmente “conselhos”) confessor nos perigos de vida; não podem satisfazer o preceito da confissão anual os menos robustos; demorarem o batismo de seus filhos, e finalmente viverem como separados da Igreja, o que provam com a atenção junta, passada pelo Vigário do Distrito, que preferindo o seu interesse para a Religião, afirma a necessidade de erigir-se uma paróchia naqueles Campos. Certos os suplicantes das mais pias e religiosas intenções e disposições de S. Majestade, bem como o zelo pastoral com que V. Excia. Promove a civilização espiritual do seu rebanho, imploram a mediação de V. Excia. Para que haja de levar à presença de S. Majestade as dolorosas circunstâncias que os oprimem e de que o remédio consiste na ereção de uma Paróchia. Este estabelecimento que a Religião exige não é de menos importância política; com ele se aumentará consideravelmente a população naqueles vastos sertões que vão confinar com as capitanias de Goiás e Cuiabá, prometendolhes comunicação mais curta com a de São Paulo. Os suplicantes não têm outro meio de alcançar o benefício, de que se consideram merecedores por suas circunstâncias; mais do que a piedade de S. majestade (…) intercessão de V. Excia., porisso P.a V. Excia. Seja servido prestar-lhes o socorro que imploram, e que está ligado com o bem da Religião e do Estado”.

Hoje, lutamos para a instalação de indústrias no Município, repartições públicas regionais, internacionalização do aeroporto, etc., e como lemos constantemente nos jornais: “…graças aos trabalhos deste e daquele deputado,…”. Mas naquela época o que mais desejavam os habitantes deste local era a instalação de uma “freguesia”, e o pedido foi assinado pelo procurador dos moradores: ninguém menos do que Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, célebre advogado na Comarca de São Paulo que foi senador durante dez legislaturas consecutivas e integrante da Regência trina provisória em 1.831. E do mesmo modo como é feito hoje, arrazoavam sua pretensão, além dos motivos espirituais, importantíssimos na época, os de ordem social e política. A população estava agoniada porque, em vista da distância, se viam separados da Igreja, o que dificultava o batismo dos seus filhos, a confissão e a páscoa anual.

A criação da Freguesia favoreceria a paz social, ficaria o povo satisfeito e, com a criação de condições melhores de vida, facilitaria a comunicação com as Capitanias de Goiás e Cuiabá.

Um detalhe interessante: o caminho que seguia para essas capitanias, vindo da capital, passava pelo núcleo que mais tarde se transformaria na cidade de São Carlos provavelmente, segundo historiadores locais, onde é hoje a atual Avenida São Carlos, que por isso foi-se urbanizando, seguia até os campos de Araraquara onde provavelmente se bifurcava tomando os rumos de Goiás e de Cuiabá. Encontrando por aqui um núcleo populacional onde hoje seria as imediações da praça da Matriz, este se tornou um ponto de parada obrigatória para os viajantes.

Mas a história parece ser mais velha ainda, pois tudo indica que esse núcleo tenha se originado pelo trabalho dos Bandeirantes em viagens que visavam as minas de ouro descobertas em Mato Grosso.

Na próxima sexta-feira eu continuo.

EM ALGUM LUGAR DA MEMÓRIA



UMA VISITA ILUSTRE:

Há mais de um mês via-se na cidade um movimento incomum onde homens, mulheres e até as crianças atiravam-se num trabalho bastante árduo. O fato justificava-se pois, dentro em breve, Araraquara receberia a visita de uma das pessoas mais respeitadas de todo o mundo, e cuja presença era requisitada como atração maior até mesmo nos grandes eventos internacionais. O visitante impunha-se não só pela sua grande intelectualidade que gerava raciocínios bastante equilibrados, motivo pelo qual suas opiniões eram solicitadas até por chefes de Estado.

O clima era o de “arrumar a casa, pois vamos receber “uma visita ilustre”. As ruas foram capinadas, as cercas consertadas; as praças tiveram suas árvores podadas, o lixo recolhido, e a maioria dos moradores, principalmente aqueles que habitavam nas vias públicas por onde passaria a comitiva visitante, pintara pelo menos as fachadas de suas residências. As ruas foram enfeitadas com bandeirinhas; as mulheres engomaram as camisas brancas dos seus maridos e nas escolas as professoras ensinaram sobre a vida do visitante e ensaiaram algumas musiquinhas. “- É possível que não dê tempo, mas se der queremos prestar uma homenagem também” disseram aos dirigentes municipais.

Enfim, chegara o tão aguardado dia seis de novembro de 1886, e a sociedade araraquarense recebeu a visita de Sua Alteza Imperial o Imperador Dom Pedro II.

O Imperador era uma figura calma, postura até mesmo requerida pela posição que ocupava. Era notório até mesmo na Europa e nos Estados Unidos o interesse que demonstrava por tudo o que lhe era mostrado. Considerado, em todo o mundo, uma das maiores culturas da época, costumava ficar atento às demonstrações, fazia inúmeras perguntas, queria saber o princípio das coisas e assistia como que hipnotizado aos resultados, terminando sempre por perguntar, deduzindo, e como se estivesse enxergando o futuro, fazendo planos de como tirar o melhor proveito das novidades para o Brasil e para os brasileiros. Antever o futuro! Essa, diziam, era a maior qualidade de Pedro de Alcântara.

Mas voltemos a estes campos. O casal Imperial e comitiva partira às 07:05h de São Carlos do Pinhal seguindo para Araraquara, ponto terminal do tronco da ferrovia da Companhia Rio Claro, aqui chegando Às 8h30m. Nas poucas horas que permaneceu em Araraquara, cerca de três horas, segundo o repórter do Jornal do Commercio, o Imperador acompanhado da Imperatriz Thereza Cristina, do Sr. Visconde de Paranaguá, Ministro da Agricultura, presidente da província e outras autoridades, visitaram a Igreja Matriz, diversas escolas públicas, a casa da Câmara, cadeia, onde haviam quatro presos, e a máquina de beneficiar café do Sr. Eduardo Kaneese, um norte-americano radicado na Vila.

Dom Pedro visitou também o “gabinete de leitura” instalado no Clube Araraquarense, “…utilíssima instituição, que também proporciona aos seus associados diversas outras diversões“, como informou o Jornal do Commercio, na cobertura da visita, e na oportunidade ofereceu, ainda ao “Gabinete”,100$000 para compra de livros. Especialmente para esta visita o Clube havia instituído um “Livro de visitantes ilustres” e foi exatamente Don Pedro II, o primeiro signatário deste livro, atualmente guardado sob custódia do Museu Histórico e Pedagógico “Voluntários da Pátria”. O Visconde de Paranaguá, é a segunda assinatura que consta do livro de visitantes do Clube.

O casal Imperial e comitiva cumpriu todo o programa acima e hospedou-se ainda na casa do Comendador José Pinto Ferraz, casado com D. Mafalda, irmã do Tenente-Coronel Joaquim Duarte Pinto Ferraz que, na oportunidade, recebeu do Imperador a Comenda de Cristo e participou de um almoço na casa do Dr. Margarido da Silva.

Arrisco em sugerir que algo está errado nos registros jornalísticos do repórter do Jornal do Commercio ao afirmar que a comitiva imperial permaneceu apenas três horas nas terras de Araraquara. Procurando refazer o caminho percorrido pela comitiva imperial anotei o seguinte:

A comitiva chegou à Araraquara as 8h30m: a grande maioria da população local estava presente ao ato; na estação as autoridades, os fazendeiros, os profissionais liberais, os empresários de ambas as facções, monarquista ou republicana, pois a festa era da cidade, isto é, um chefe de estado estava visitando a cidade. Normalmente, desde a descida do trem, recepção, apresentações de praxe, primeiras homenagens, primeiros comentários, acomodação nos veículos, etc, gasta-se trinta minutos, no mínimo. A comitiva seguiu de carro da Estação até a praça da Matriz pela atual avenida Brasil, lindamente ornamentada com arcos de folhagens, bandeiras e outros enfeites ao longo da qual apinhava-se a população. Em velocidade moderada, até para permitir que o povo visse o Imperador e sua esposa, e que estes acenassem para a população, no mínimo mais meia hora seria necessário.

Admitindo-se nas despedidas mais trinta minutos, e que o almoço, por dedução, servido pouco antes das 10h tivesse durado apenas uma hora, na realidade muito pouco se considerarmos, as exigências do protocolo, as homenagens, os discursos, o oferecimento de presentes, etc, e o que é principal, o tempo para a refeição, já teríamos utilizado quase duas horas e meia das três que o Imperador aqui permaneceu. No tempo que restou, a comitiva teria realizado todas as visitas, o que acredito ser absolutamente impossível.

Até bem pouco tempo, Dom Pedro II havia sido a mais alta autoridade, no exercício do cargo, que visitou Araraquara. Curiosamente, nenhum chefe de Estado no poder havia visitado a cidade. Tivemos a visita de ex-presidentes ou de futuros presidentes, mas no exercício do cargo ninguém. O jejum foi quebrado por Lula, curiosamente dois extremos.

EM ALGUM LUGAR DA MEMÓRIA



GLENN

Confesso que as vezes, quando vacilo, a tristeza bate em mim e provoca algum estrago. Por isso demorei alguns dias para escrever este assunto; mas hoje criei coragem e como de nada adianta ficar triste aqui vai.

Nós morávamos na Rua São Bento, hoje Maria Janasi Biagioni, no. 406, casa de esquina com a Avenida XV de Novembro. Subir pela “Rua 3” era um dos meus caminhos diários. Na esquina de cima, com a Av. D. Pedro II, morava o Sr. Cassio de Carvalho, e sua esposa a D. Nenê, ambos de tradicionalíssimas famílias de Araraquara, as chamadas “Famílias Quatrocentonas”. Era comum vê-lo de pijama, sentado numa cadeira na varanda a apreciar o movimento da rua, naquela época muito calma, por sinal.

As famílias eram amigas, meu pai era amigo e colega de seu filho, o advogado Alício de Carvalho, e como amigo do meu pai era meu amigo, fiz com o “seu” Cassio uma boa amizade. Ele se admirava em ver um menino de oito ou nove anos, cumprimentar e dar atenção à uma pessoa como ele, já carregado em anos.

“Seu” Cassio e dona Nenê tinham dois filhos: o Dr. Alício e a Conchita. Esta era casada com um americano, o Toone representante de uma grande companhia Americana em São Paulo e quando vinham para Araraquara visitar os pais, vinham sempre de “rabo de peixe”; vocês se lembram o que era um “rabo de peixe”? Então; era um desses carrões norte-americanos, coisa muito rara na época, enormes, que tinham a parte traseira da lataria parecida com um rabo de peixe. Daí o apelido, no tamanho do “status” de seu proprietário.

Toone e Conchita, tiveram um único filho o Glenn, registrado como Glenn Scooty Toone. Mesmo, quase cinco anos mais novo do que eu brincava comigo, mais os irmãos Sualdini: O Cleide e o Edson, também moradores nas redondezas.

Morreu o “seu Cássio; morreu o Dr. Alício, a Dona Nenê, a Conchita e finalmente o Toone. O Glenn ficou sozinho no mundo. Para não dizer que ficou só, restou-lhe ainda o primo Ivam, filho do Dr. Alício. Até aí nada de mais, pois milhares de pessoas ficam sozinhas neste mundo e conseguem sobreviver, formar famílias e seguir o seu destino. Dentre estes milhares, não estava o Glenn. Ele havia sido mimado demais para ter ânimo e condições para seguir em frente.

Sempre teve alguém para fazer as coisas por ele. Não tinha preocupações, não passava por necessidades e nem por privações. Fora criado e educado na mais tradicional escola de doutrina americana; falava fluentemente dois idiomas. Sozinho neste mundo, de uma hora para outra e nestas condições, perdeu o rumo.

Não sei, mas é provável que seu pai rico tivesse deixado muitos bens para ele. Aqui em Araraquara, teve a herança dos avós, imóveis bem localizados que lhe rendiam aluguéis que poderiam lhe proporcionar uma vida razoável, mas segura.

Para qualquer um seria, mas não para o Glenn, pois para quem não havia sido apresentada a maldade, ainda existia um coração puro que acreditava em tudo e em todos. Privado de repente do carinho familiar tornou-se muito carente, e portanto vulnerável às coisas ruins desta vida. O seu enorme conhecimento da língua inglesa e da cultura norte americana quase lhe rendeu excelentes ocupações, mas que logo eram descartadas em vista deste grande “pecado”: a sua pureza de coração.

Eu o via sempre pelas ruas da cidade e quando me encontrava demonstrava forte emoção. Era um daqueles “mais chegados” que gostavam de me chamar de “Osvaldinho”. Na maioria das vezes eu fazia de tudo para esconder as lágrimas, pois eu não conseguia imaginar como a criança de excelente berço, cercada de todo o carinho, muito mimada e rica que eu havia conhecido se apresentava agora, completamente desleixado, roupas sujas, impróprias para o tamanho de seu corpo outrora atlético, empurrando um desproporcional carrinho de sorvetes “Felizardo”.

“- Ôôô,… Osvaldinho, compra um do meu, assim você me ajuda!”. Um sábado, há quase um mês, lendo a coluna necrológica do Jornal, vi a notícia: “GLENN SCOOTY TOONE – Dia 28, aos 58 anos, sepultado no Cemitério São Bento.” Não houve nem velório. Do hospital à funerária e desta para o São Bento. Nem eu, e nem o Edson e o Cleide, soubemos de nada.

Paro por aqui; reascendem as lembranças, voltou a tristeza. Desculpem-me. Glenn, o Felizardo, já pertence ao passado.

EM ALGUM LUGAR DA MEMÓRIA



O RECONHECIMENTO DA UNIÃO HOMOAFETIVA

Quando nos dispomos a escrever sobre a memória, não podemos deixar-nos contagiar apenas pelos fatos que abundam a nossa história. Devemos, a meu ver, abordar também fatos contemporâneos que, no instante após o seu acontecimento, passam a fazer parte da memória.

Assim, sinto-me a vontade ao expor aqui a minha humilde cultura sobre o reconhecimento da união homoafetiva, até porque aprovada no último dia 04, também já pertence ao passado. E dada à sua indiscutível importância, está em lugar de destaque na memória nacional.

No começo do mês, os Ministros do Supremo Tribunal Federal apreciaram duas matérias de grande importância para a vida do ser humano em geral e a do brasileiro em particular. A primeira, uma Ação Direta de Inconstitucionalidade de autoria da Procuradoria-Geral da União, – ADIN n.º 4277 e outra, a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF n.º 132, impetrada pelo Governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, nas quais reconheceram a união estável para casais do mesmo sexo, ou “União Estável Homoafetiva”.

A primeira (a ADIN 4277) foi protocolada na Corte inicialmente como ADPF 178 ebuscava a declaração de reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Pediu, também, que os mesmos direitos e deveres dos companheiros nas uniões estáveisfossem estendidos aos companheiros nestas situações.

Já na ADPF 132, o governo do Estado do Rio de Janeiro alegou que o não reconhecimento da união homoafetiva contraria preceitos fundamentais como igualdade, liberdade (da qual decorre a autonomia da vontade) e o princípio da dignidade da pessoa humana, todos da Constituição Federal. Com esse argumento, pediu que o STF aplicasse o regime jurídico das uniões estáveis, previsto no artigo 1.723 do Código Civil, às uniões homoafetivas de funcionários públicos civis do Rio de Janeiro.

Desta forma, e nas formas dos artigos seguintes, todos do Código Civil Brasileiro, as relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade, respeito e assistência, e de guarda, sustento e educação dos filhos. Isto mesmo: guarda, sustento e educação dos filhos, pois muito embora biologicamente não haja a possibilidade de concepção natural, os companheiros em união estável poderão adotar crianças como se filhos fossem, estando pois compromissados com estes.

Outro detalhe importante (e acredito que seja a grande dúvida) é em relação à questão patrimonial. Na “União Estável”, aplicam-se todas as relações do casamento comum, inclusive nos regimes permitidos por Lei. Assim, salvo contrato escrito firmado entre os companheiros também será admitido o regime da comunhão parcial de bens.

A “União Estável”, como entidade familiar, já era reconhecida pelo artigo 1.723 do nosso Código Civil, apenas entre homens e mulheres, sem nenhum impedimento para o casamento civil, configurada na convivência pública, contínua e duradoura, estabelecida com a finalidade de constituição de uma unidade familiar, base de toda a sociedade humana.

É importante informar que as leis também possuem uma hierarquia, e os códigos estão abaixo da lei maior, a verdadeira espinha dorsal do ordenamento jurídico de um Estado politicamente organizado, que é a sua Constituição.

Todavia, a Constituição Federal, lei maior, em seu artigo terceiro inciso IV, veda qualquer discriminação em virtude de sexo, raça ou cor, o que significa também que ninguém pode ser diminuído ou discriminado em função de sua preferência sexual.

O ministro Ayres Britto, Relator de ambas as ações, votou no sentido de dar esta exata determinação da Constituição Federal, excluindo qualquer significado do artigo 1.723 do Código Civil que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Nas suas razões entende que:

O sexo das pessoas, salvo disposição contrária, não se presta para desigualação jurídica”,concluindo que: “- qualquer depreciação da união estável homoafetiva colide, portanto, com o inciso IV do artigo 3º da CF.”

Acompanharam este entendimento, pela procedência de ambas as ações e com efeito vinculante os ministros Luiz Fux, Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes, Marco Aurélio, Celso de Mello e CezarPeluso, bem como as ministras Cármen Lúcia Antunes Rocha e Ellen Gracie, no sentido de dar a correta interpretação conforme o determinado pela Constituição Federal excluindo assim, definitivamente qualquer significado impeditivo do artigo 1.723 do Código Civil.

Bem sei que o fato em si, ainda provoca alguns choques em algumas opiniões mais ortodoxas, que possuem as suas razões voltadas para a natural união heteroafetiva. Não pretendo entrar na discussão eterna entre feminino e masculino com as suas características e funções naturais; todavia, não se pode negar a sua existência, a sua efetiva participação na sociedade e mais do que isso, a sua oportunidade em gerar direitos.

Assim, preferiu a Doutrina trazer este relacionamento ao amparo da Lei, reconhecendo-o na forma da União Estável.

Interaja: dê sua opinião no blog: famíliazaniolo@blogspot.com.

EM ALGUM LUGAR DA MEMÓRIA



INVENTÁRIOS E PARTILHAS

A Comarca de Araraquara foi criada pela Lei no. 61 de 20 de abril de 1.866. Um mês, ou mais precisamente trinta e cinco dias depois o Decreto no. 3.659 firmado por sua Majestade o Imperador Don Pedro II, declarava de primeira entrância a Comarca de Araraquara, designando como seu primeiro Juiz de Direito o Dr. Cândido Xavier de Almeida e Souza. Sua posse não foi imediata. O Presidente da Câmara Municipal de Araraquara, o Dr. Joaquim de Almeida Leite de Morais, precisou pedir “pelo amor de Deus” para que este viesse tomar posse o que só aconteceu em 28 de outubro do mesmo ano.

E o dramático apelo do Vereador tinha forte fundamentação. Ocorreu que, com a criação da Comarca, e portanto com o poder Judiciário presente, estavam sendo remetidos para a cadeia desta Vila todos os presos das cidades que ficavam sob a sua jurisdição, e assim restavam receosos os araraquarenses com a segurança da Vila.

Ora, e não era pra menos. A Vila possuía um único local para receber prisioneiros. Era uma construção de madeira, onde todos, ficavam numa cela só, independentemente de sexo e do crime que cometeram, e como as rendas da Vila eram muito pequenas, diversos ofícios foram enviados ao Presidente da Província na tentativa de se conseguir uma construção reforçada, com grades de ferro e compartimentos para “seleção de presos”. “-Vossa Excelência deve compreender, senhor Presidente, que a cadeia da cabeça da Comarca deve ter toda a segurança possível…”, afirmou o Edil-Presidente em seu ofício.

Vejam, meus caros leitores, que a superpopulação carcerária não é coisa dos tempos atuais. Em 1.866, ela já era um problema para Araraquara.

Tem muita gente que me pede para escrever isso, mas, brincadeiras à parte, o primeiro funcionário da Justiça local não foi o Abreu. Este, graças à Deus ainda está aqui para nos orientar com a sua longa vivência forense e com a sua inconfundível dedicação e cortezia.

Mas, sendo eu um humilde Advogado militante no forum local, um simples estagiário do meu filho André “apaixonado em realizar Inventários e Partilhas, pelo que modestamente me especializo, fiquei até emocionado quando tive a certeza de que o primeiro processo vivido no Forum de Araraquara, que naquele 30 de outubro de 1.822, não se chamava “Forvm Jviz Macedo Covto”,fora exatamente um Inventário em que a “de cujus”a Senhora Ana Maria de Assunção, esposa de João Pinto Ferreira, fundador da cidade de Jaboticabal.

Como não havia “Jviz”, nem Comarca e como dependêssemos do distrito de Constituição, atual Piracicaba, Comarca de Itú, quem o presidiu foi o Dr, Manuel de Barros Ferraz, juiz de órfãos de Piracicaba.

Vale á pena transcrever o ato em homenagem aos meus colegas e demais integrantes da tripulação judiciária local:

“Inventário de Ana Maria de Assunção. Inventariante João Pinto Ferreira. Juiz de Òrfãos cidadão Manuel de Barros Ferraz. Escrivão João Luis Leite Freire. (viram? Não foi o Abreu!, comento eu: – eco ou rima?). Segundo tabelião e escrivão de órfãos da Vila de Constituição, da Comarca de Itú.

Aos trinta de outubro de mil oitocentos e vinte e dois, nestes Campos da Freguesia de São Bento de Araraquara, termo da Vila de Constituição, da Comarca de Itu e Fazenda da Capoeira, onde vim eu, escrivão de órfãos abaixo assinado, com correição do Juiz de órfãos, Manuel de Barros Ferraz, e sendo ali João Pinto Ferreira lhe dei juramento dos Santos Evangelhos na forma devida e lhe encarreguei que servisse de inventariante dos bens do seu casal, por falecimento de sua mulher Ana Maria de Assunção, e recebido por ele o dito juramento em tudo prometeu cumprir como lhe ordeno carregado. Do que para constar lavrei este termo, em que se assinou comigo, eu, João Luis Leitão Freire, escrivão de órfãos que escrevi e assino”.

Um pouco diferente dos tempos atuais; o Forum deslocouse até o Requerente; percebam a distância entre Araraquara e Piracicaba e lembrem-se que as viagens eram feitas em lombo de animais e as estradas se resumiam em caminhos de terra.

Em se falando em inventários e partilhas um dos casos mais vultuosos naquele passado distante ocorreu em 1.842. Pedro José Neto, o fundador da primeira capela nos campos de Araraquara, e por isto atribuído como fundador da cidade, dentre outros teve dois filhos José da Silva Neto e Joaquim Ferreira Neto. O primeiro havia se transferido para a Província de São Pedro do Sul, hoje denominado Estado do Rio Grande do Sul, mas não fora feliz nos negócios, e lembrando que o seu pai havia se estabelecido e com muito sucesso nos Campos de Araraquara, voltou de lá com a intenção declarada de requerer a meação dos bens deixados pelo falecimento de seus pais ocorrido vinte anos antes.

Joaquim Ferreira Neto, motivado pelos falecimentos dos outros herdeiros e pelo longo e inexplicável silêncio de seu irmão José julgava-se herdeiro único e universal dos bens do fundador de Araraquara. Com muita má vontade, como era esperado, entabulou diversas partilhas e nenhuma delas foi do agrado de seu irmão que não teve outra saída senão a de pedir a famosa “tutela jurisdicional”. E assim, não só pediu a metade dos bens de Pedro José, como também a prestação de contas dos últimos vinte anos, participação nos lucros e na produção da herança e parte da herança de um outro irmão falecido, Manuel Ferreira Neto.

Este inventário foi razoavelmente rápido em vista do montante a ser discutido e terminou em14 de fevereiro de 1.844, não se tendo conhecimento se houve apelações ou demais recursos. Dele dentre as mais interessantes peças entre alegações e contestações destacamos as seguintes: …”(um dos §§da contestação de Joaquim Ferreira Neto).

“- … em fuga que fez para o sul, deixando-nos com a maior ingratidão, e com desrespeito do Pátrio poder clandestinamente lançou mão de três bestas e uma espingarda,…

Deve-se lastimar a fuga do nosso irmão herdeiro, uma vez que podendo estar à testa das bestas mansas, que nos menciona no período 4º, de sua exigência, atirou-se para o sul.

Para finalizar esta é ótima. Quando se faz as declarações de um Inventário, o advogado deve informar ao Juízo se o “de cujus, – inventariado -, deixou “dívidas ou ônus reais”e se existem despesas á serem reembolsáveis. Neste item foi juntado um recibo assinado pelo Padre Francisco Manuel Malachias, datado de 8 de fevereiro de 1.820 com o seguinte teor:

“Certifico que disse quinze missas pela Alma do falecido Pedro José Neto, depois disse mais vinte e cinco missas pelo mesmo e mais vinte e cinco pela mulher do dito Neto, depois encomendou- me mais trinta e uma”.

Noventa e Seis!!!
PS:: muita gente deve estar comentando: Nossa ! com noventa e seis missas até o José Alencar é capaz de ir para o céu,… (isto é, se reconhecer a filha, é claro, Eh! Eh! Eh!).

EM ALGUM LUGAR DA MEMÓRIA



INVENTÁRIOS E PARTILHAS

INVENTÁRIOS E PARTILHAS

A Comarca de Araraquara foi criada pela Lei no. 61 de 20 de abril de 1.866. Um mês, ou mais precisamente trinta e cinco dias depois o Decreto no. 3.659 firmado por sua Majestade o Imperador Don Pedro II, declarava de primeira entrância a Comarca de Araraquara, designando como seu primeiro Juiz de Direito o Dr. Cândido Xavier de Almeida e Souza. Sua posse não foi imediata. O Presidente da Câmara Municipal de Araraquara, o Dr. Joaquim de Almeida Leite de Morais, precisou pedir “pelo amor de Deus” para que este viesse tomar posse o que só aconteceu em 28 de outubro do mesmo ano.

E o dramático apelo do Vereador tinha forte fundamentação. Ocorreu que, com a criação da Comarca, e portanto com o poder Judiciário presente, estavam sendo remetidos para a cadeia desta Vila todos os presos das cidades que ficavam sob a sua jurisdição, e assim restavam receosos os araraquarenses com a segurança da Vila.

Ora, e não era pra menos. A Vila possuía um único local para receber prisioneiros. Era uma construção de madeira, onde todos, ficavam numa cela só, independentemente de sexo e do crime que cometeram, e como as rendas da Vila eram muito pequenas, diversos ofícios foram enviados ao Presidente da Província na tentativa de se conseguir uma construção reforçada, com grades de ferro e compartimentos para “seleção de presos”. “-Vossa Excelência deve compreender, senhor Presidente, que a cadeia da cabeça da Comarca deve ter toda a segurança possível…”, afirmou o Edil-Presidente em seu ofício.

Vejam, meus caros leitores, que a superpopulação carcerária não é coisa dos tempos atuais. Em 1.866, ela já era um problema para Araraquara

Tem muita gente que me pede para escrever isso, mas, brincadeiras à parte, o primeiro funcionário da Justiça local não foi o Abreu. Este, graças à Deus ainda está aqui para nos orientar com a sua longa vivência forense e com a sua inconfundível dedicação e cortezia.

Mas, sendo eu um humilde Advogado militante no forum local, um simples estagiário do meu filho André “e apaixonado em realizar Inventários e Partilhas, pelo que modestamente me especializo, fiquei até emocionado quando tive a certeza de que o primeiro processo vivido no Forum de Araraquara, que naquele 30 de outubro de 1.822, não se chamava “Forvm Jviz Macedo Covto”, fora exatamente um Inventário em que a “de cujus”era a Senhora Ana Maria de Assunção, esposa de João Pinto Ferreira, fundador da cidade de Jaboticabal.

Como não havia “Jviz”, nem Comarca e como dependêssemos do distrito de Constituição, atual Piracicaba, Comarca de Itú, quem o presidiu foi o Dr, Manuel de Barros Ferraz, juiz de órfãos de Piracicaba.

Vale á pena transcrever o ato em homenagem aos meus colegas e demais integrantes da tripulação judiciária local:

“Inventário de Ana Maria de Assunção. Inventariante João Pinto Ferreira. Juiz de Òrfãos cidadão Manuel de Barros Ferraz. Escrivão João Luis Leite Freire. (viram? Não foi o Abreu!, comento eu: – eco ou rima?). Segundo tabelião e escrivão de órfãos da Vila de Constituição, da Comarca de Itú.

Aos trinta de outubro de mil oitocentos e vinte e dois, nestes Campos da Freguesia de São Bento de Araraquara, termo da Vila de Constituição, da Comarca de Itu e Fazenda da Capoeira, onde vim eu, escrivão de órfãos abaixo assinado, com correição do Juiz de órfãos, Manuel de Barros Ferraz, e sendo ali João Pinto Ferreira lhe dei juramento dos Santos Evangelhos na forma devida e lhe encarreguei que servisse de inventariante dos bens do seu casal, por falecimento de sua mulher Ana Maria de Assunção, e recebido por ele o dito juramento em tudo prometeu cumprir como lhe ordeno carregado. Do que para constar lavrei este termo, em que se assinou comigo, eu, João Luis Leitão Freire, escrivão de órfãos que escrevi e assino”.

Um pouco diferente dos tempos atuais; o Forum deslocou-se até o Requerente; percebam a distância entre Araraquara e Piracicaba e lembrem-se que as viagens eram feitas em lombo de animais e as estradas se resumiam em caminhos de terra.

Em se falando em inventários e partilhas um dos casos mais vultuosos naquele passado distante ocorreu em 1.842. Pedro José Neto, o fundador da primeira capela nos campos de Araraquara, e por isto atribuído como fundador da cidade, dentre outros teve dois filhos José da Silva Neto e Joaquim Ferreira Neto. O primeiro havia se transferido para a Província de São Pedro do Sul, hoje denominado Estado do Rio Grande do Sul, mas não fora feliz nos negócios, e lembrando que o seu pai havia se estabelecido e com muito sucesso nos Campos de Araraquara, voltou de lá com a intenção declarada de requerer a meação dos bens deixados pelo falecimento de seus pais ocorrido vinte anos antes.

Joaquim Ferreira Neto, motivado pelos falecimentos dos outros herdeiros e pelo longo e inexplicável silêncio de seu irmão José julgava-se herdeiro único e universal dos bens do fundador de Araraquara. Com muita má vontade, como era esperado, entabulou diversas partilhas e nenhuma delas foi do agrado de seu irmão que não teve outra saída senão a de pedir a famosa “tutela jurisdicional”. E assim, não só pediu a metade dos bens de Pedro José, como também a prestação de contas dos últimos vinte anos, participação nos lucros e na produção da herança e parte da herança de um outro irmão falecido, Manuel Ferreira Neto.

Este inventário foi razoavelmente rápido em vista do montante a ser discutido e terminou em14 de fevereiro de 1.844, não se tendo conhecimento se houve apelações ou demais recursos. Dele dentre as mais interessantes peças entre alegações e contestações destacamos as seguintes: …”(um dos §§ da contestação de Joaquim Ferreira Neto).

“- … em fuga que fez para o sul, deixando-nos com a maior ingratidão, e com desrespeito do Pátrio poder clandestinamente lançou mão de três bestas e uma espingarda,…

Deve-se lastimar a fuga do nosso irmão herdeiro, uma vez que podendo estar à testa das bestas mansas, que nos menciona no período 4º, de sua exigência, atirou-se para o sul.

Para finalizar esta é ótima. Quando se faz as declarações de um Inventário, o advogado deve informar ao Juízo se o “de cujus, – o inventariado -, deixou “dívidas ou ônus reais” e se existem despesas á serem reembolsáveis. Neste item foi juntado um recibo assinado pelo Padre Francisco Manuel Malachias, datado de 8 de fevereiro de 1.820 com o seguinte teor:

“Certifico que disse quinze missas pela Alma do falecido Pedro José Neto, depois disse mais vinte e cinco missas pelo mesmo e mais vinte e cinco pela mulher do dito Neto, depois encomendou-me mais trinta e uma”.

Noventa e Seis!!!

PS:: muita gente deve estar comentando: Nossa ! com noventa e seis missas até o José Alencar é capaz de ir para o céu,… (isto é, se reconhecer a filha, é claro, Eh! Eh! Eh!).

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