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Dia dos Finados

Luís Carlos Bedran* Dois de novembro em nosso país e nalguns outros influenciados pelo cristianismo, é o dia em que se costuma recordar dos mortos queridos. Por isso, não há como deixar de se refletir sobre a fragilidade da vida, pensando na morte, que é o único acontecimento em que se tem certeza absoluta de […]

Luís Carlos Bedran

Luís Carlos Bedran*

Dois de novembro em nosso país e nalguns outros influenciados pelo cristianismo, é o dia em que
se costuma recordar dos mortos queridos. Por isso, não há como deixar de se refletir sobre a fragilidade da
vida, pensando na morte, que é o único acontecimento em que se tem certeza absoluta de que ninguém
conseguirá escapar.
A visita aos cemitérios, a colocação de flores nos túmulos, o encontro dos parentes, é motivo,
menos de tristeza do que de alegria, tal como ocorre no México, pois lá é pura festa, influência dos seus
antigos habitantes indígenas, como bem descreveu o escritor Érico Veríssimo no seu livro “México”,
estranhando aquela tradição.
A morte é inevitável. Todo ser humano já conhece de antemão o seu fim, muito embora ele não
saiba quando, nem como isso acontecerá (a não ser o suicida). Para Camus, o filósofo existencialista, só
há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. É o que ele diz em sua obra, “O Mito de
Sísifo”. É a filosofia do absurdo: julgarmos se a vida merece ou não ser vivida.
Um filósofo é aquele que pensa na morte todos os dias, tal como dizia Montaigne (1533-1592),
porque para ele “filosofar é aprender a morrer”, pois não desconhece que, logo que nascemos já
começamos a morrer. Então, para o filósofo descrente, enfrentar a morte é prova de sabedoria, pois não há
mais esperança de outra vida, ou de vida póstuma.
Por isso, o importante mesmo é o valor do instante, do efêmero e, para tentar suportar a ideia da
morte, devemos meditar sobre ela (“meditarem mortem”), exercitar-se para a morte, familiarizar-se com
ela desde logo e procurar viver todos os instantes da vida, como se a morte fosse ocorrer a qualquer
momento.
Como disse o poeta Mário Quintana, “Minha morte nasceu quando eu nasci. / Despertou,
balbuciou, cresceu comigo… / E dançamos de roda ao luar amigo / Na pequenina rua em que vivi”. (“A
Rua dos Cataventos”, 1906).
A filosofia leva o homem a ter consciência de sua própria ignorância. Sócrates (469-399 a.C.)
justificou sua aceitação da morte ao dizer aos seus discípulos, quando foi obrigado a se envenenar, que
“temer a morte não é senão se acreditar sábio, quando não se é, pois é acreditar que se sabe, o que não se
sabe. Ninguém sabe o que é a morte, e se não seria, para os homens, o supremo bem; mas quem a teme,
julga conhecê-la e está seguro de que é o maior dos males. Não é isso a verdadeira e condenável
ignorância: crer que se sabe o que não se sabe?”. (“Apologia”, de Platão).
O ser humano se considera teoricamente imortal. “(…) Isso poderia explicar, em parte, por que e
como as sociedades construíram sistemas protetores, especialmente a nível dos ritos e das crenças (o
imaginário) para se dar a ilusão de perenidade, ou, em todo caso, para remeter a perenidade de um mundo
a outro (sobrevivência no além”). (“Antropología de la Muerte”, de Louis-Vincent Thomas).
Por que então esse medo da morte, se ela nos acompanha a todo tempo? Por que, se “depois da
morte não há nada, e a própria morte não é nada?”. (Sêneca, 55 a.C.-39 d.C., in “As Mulheres de Troia”
II). É porque o homem raciocina e ele não se conforma com esse fato absolutamente inevitável.
Mas, ao mesmo tempo está ínsito nele, como em todo animal, o instinto de sobrevivência, de
autoconservação e de sua espécie. É o único animal que enterra seus mortos.
E, no Dia dos Finados, crentes e filósofos, vamos nos recordar dos mortos e viver a vida, cada qual
a seu modo, nem que seja por alguns momentos e a refletir sobre nossa frágil existência.

*Sociólogo

 

 

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