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Depois das eleições

Luís Carlos Bedran

Como todo brasileiro preocupado com os rumos de nossa nação, não poderia deixar de manifestar-me, embora superficialmente, sobre a eleição para a presidência da República deste ano, importando menos desvendar as causas da vitória de um ou da derrota de outro, do que analisar os meios utilizados pelos contendores para atingir seus objetivos.
Coisa nunca vista antes esse maniqueísmo do bem contra o mal, do pobre contra o rico, do negro contra o branco, do homo contra o heterossexual, como se todos nós não estivéssemos no mesmo barco Brasil, como se não vivêssemos nesta pátria amada, fomentando-se uma verdadeira luta de classes completamente ao arrepio de nossa Constituição republicana.
Pois entre os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, consta no artigo 3º, IV, “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
Mas o que se observou nas campanhas, implícita e, por mais das vezes explicitamente, foi uma exacerbação dos odiosos preconceitos que jamais se esperava ocorrer em nosso país, cujo povo, até então, era considerado cordial ou mesmo aparentemente cordial, nas palavras, talvez equivocadas, do historiador Sérgio Buarque de Holanda ditas em seu livro “Raízes do Brasil”.
A dizer que os nossos irmãos dos Estados do Norte e Nordeste eram contra os também nossos irmãos do Sul e Sudeste, reabriu-se uma ferida que há muito tempo esperava-se ter sido ultrapassada, dividindo-se o País em dois: o dos supostamente ricos do Sul e Sudeste e os dos supostamente pobres do Norte e Nordeste.
Enfatizou-se também o preconceito racial, claramente observado no discurso da vitória da senhora presidente reeleita, ao agradecer aos negros por sua reeleição, como se a maioria de nossos habitantes não fosse negra ou mulata, a qual, segundo as estatísticas oficiais, é composta de mais de 60%. E os outros cidadãos que a sufragaram nas urnas, não conta? Por que essa extemporânea discriminação?
Discursos nervosos dos correligionários da vencedora, embora de palanques, demonstraram claramente essa divisão. Se a disputa terminou, restaram sequelas que dificilmente poderão ser eliminadas com o correr dos anos.
Por isso é necessário que urgentemente retomemos o curso normal de um país que sempre abominou a luta de classes, que sempre detestou discriminar as etnias e até mesmo as preferências sexuais de cada um e das quais o Estado não tem de interferir, a não ser protegê-las legalmente.
Parece que o ódio foi incutido nos cidadãos. E para terminar. No mínimo faltou elegância à presidente reeleita. Pois deveria, ao menos, publica e republicanamente, em seu discurso da vitória, ter agradecido os cumprimentos de seu adversário pela reeleição.
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