Selecione a página

Coisas do céu e da terra

Coisas do céu e da terra

Gostaria de saber escrever poesias como uma forma de se desligar, pelo menos por alguns breves momentos, da banalidade das coisas que se sucedem num mundo tão agitado como esse que vivemos. Até que seria bem possível, caso este cronista deixasse de ler jornais e livros atuais, de reler os do passado e de não procurar se importar muito com as coisas mundanas que não conseguem ser evitadas, como, por exemplo, deixar de ir comprar pão na padaria da esquina ou então de fazer algumas compras no supermercado mais próximo.

E de vez em quando dar um pulinho no bar do João Turco (que não é turco, mas genuinamente brasileiro, descendente de libaneses) para tomar uma Caracu com alguns conhecidos, tal como fazia meu pai Jorge, no Bar Bedran, tocado pelo seu irmão Abrahão (e irmãs que faziam um quibe delicioso), acompanhado do Negrinho, do Dr. Zoláchio, do Darling e de tantos outros nos longínquos tempos da pequena Santa Adélia.

Tal como fazia o Dilter, jornalista e dono do jornal da cidade, de esquerda e que vibrou quando Fidel Castro tomou o poder na Cuba de Fulgêncio Batista, tomando umas e outras, fumando sem parar e fazendo palavras cruzadas. Ateu convicto, fui visitá-lo num hospital em São Paulo, um problema sério. Acho que a doença que teve foi de tanto fumar. Mas aí ele já não era senhor de si e até se sujeitou, influenciado pelos desesperados familiares, a acreditar em seitas que racionalmente abominava.

Os tempos mudaram e hoje seria impossível agir como no passado: fumar e beber num bar ao mesmo tempo. Ou bem se bebe, ou mal se fuma: os bate-papos sobre os mais vários assuntos, até sobre contestar o governo ou discutir sobre uma revolução, sutilmente foram banidos pelo Estado que proibiu o cigarro nos bares.

Não há mais repressão “manu militari” como se fazia nos tempos da esquerda festiva, onde os habitués contestadores, regados a uísque ou caipirinhas, tentavam mudar os rumos do País e o mundo em conversas intermináveis que varavam as madrugadas. E depois comerem os pãezinhos quentes que saíam da Padaria Palamone no deserto centro de Araraquara, com a vaga sensação de que, pelo menos, uma parte das grandes questões que afligiam a humanidade estava completamente resolvida.

Embora ainda não tenham sido resolvidas — e isso continuará sendo impossível — a tentativa foi válida. É verdade que ainda se faz poesia e ainda se discute política (esta então muito superficialmente), mas, no mais das vezes, sobre todas as coisas, muito de leve. Não como no passado, onde a indignação estava sempre presente, como a seguir aquele dito que teria sido dito por Che Guevara e que li recentemente num jornal (sempre jornal!): “Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros”.

O leitor surpreso ou a leitora curiosa poderiam pensar então que este cronista é um tanto alienado (uma expressão corrente no passado, no sentido de o burguês “reacionário” não estar por dentro das grandes questões políticas), sobre o que se passa no País e no mundo por, raramente, assistir televisão ou então deixar de estar plugado na internet pelo computador, Facebook e quejandos.

Enganam-se redondamente. Porque isso tudo é muito superficial e descartável; irrelevante e banal. Mas ainda há tempo. De sonhar e de fazer poesias. Até mesmo de escrever crônicas, palavra essa que vem do deus grego, Cronos, filho do Céu (Urano) e da Terra (Gaia).

Coisas do céu e da terra…

Últimos Vídeos

Carregando...

Charge

Publicidade

Publicidade

Arquivos

Publicidade