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Civismo e Democracia

Por Luís Carlos Bedran

“O que acontece hoje no Congresso Nacional está levando o cidadão cada vez mais a descrer da democracia e a aspirar um governo ditatorial.

Mas o que ele talvez não saiba é que a democracia, que pressupõe a liberdade de expressão, não é um regime fácil de ser praticado porque só pode ser aperfeiçoado por tentativas e erros.

A democracia não cai do céu, nem pode ser imposta por um senhor todo poderoso. Não é um regime comodista como a ditadura, onde o povo não precisa pensar porque o ditador pensa por ele.

Por isso muitos acomodados acham mais tranquilo viver sob uma ditadura do que sob um regime de liberdade, porque neste as provações são grandes e nada é conseguido facilmente.

Depende muito do espírito de um povo formado sob as agruras do cotidiano e das guerras para dar valor à liberdade; quanto mais sofrido um povo mais valor dará ele à democracia.

Por isso não sabem o que dizem aqueles que torcem pela volta de um regime de força e pelo fechamento do Congresso. É preferível ir depurando aos poucos as falas inevitáveis de nossos congressistas, porque em 500 deles há mais chances de acertar do que ter de aguentar ver um ditador errar sozinho.

Uma das mais belas expressões da cidadania numa democracia, é o uso dos símbolos da Pátria, que não é somente privilégio dos militares. E errado associar-se militar a um regime forte, só porque ele é um cidadão armado e como se ele não fosse um cidadão que sofresse com os desmandos dos políticos poderosos.

Mas, pela formação que têm, o sentimento de civismo é muito arraigado e essa noção deveria transmitida a todo cidadão civil, porque na verdade, “omnis cives est miles”, como diziam os romanos. Todo civil é militar ou torna-se, quando necessário para defender sua pátria.

Daí que, como reação ao pessimismo reinante atualmente, o cidadão deveria praticar mais a democracia e a liberdade tal como o fizeram os caras-pintadas estudantes e cultuar os símbolos da pátria, seja ouvindo o Hino Nacional, seja hasteando a Bandeira em toda e qualquer oportunidade, tudo para tentar melhorar o nosso astral que ultimamente anda muito baixo.

Já se observa um movimento nesse sentido. Um banco resolveu hastear a Bandeira em todas suas agências espalhadas pelo País; algumas entidades sociais, como os Rotarys e Lyons, de uma cidade do interior de São Paulo, resolveram fazer uma campanha para a compra de bandeiras, em substituição das velhas, para que sejam hasteadas diariamente, não somente nas escolas, mas em todas as repartições públicas, nas entidades de classe ou outros lugares especiais, manifestando-se dessa forma sua crença em nosso país.

O uso da Bandeira sofre as limitações decorrentes da lei 5700 de 1/7/91, diferentemente do que ocorre nos EUA onde seu uso é liberal ao extremo. Na verdade, mesmo a nossa pode ser apresentada em qualquer lugar, desde que se lhe assegure o devido respeito ou hasteada ou distendida e sem mastro, além do que ela pode ser hasteada dia e noite. Mas, neste caso deve estar iluminada.

As Câmaras Municipais e as Prefeituras são obrigadas a hasteá-las diariamente. Quando o ex-vereador Geraldo Polezze foi presidente da Câmara Municipal de Araraquara, instituiu uma verdadeira festa cívica no hasteamento da Bandeira, com a participação periódica das escolas do município, com toda pompa e circunstância, como devido. Pena que esse exemplo de civismo e de cidadania não houvesse vingado; aliás, essa deveria ser uma prática instituída por lei municipal.

O Hino Nacional então deveria ser mais constantemente tocado nas rádios, no início e no fim das transmissões, tal como ocorre na rádio e TV Cultura de São Paulo, bem como em toda solenidade de formatura ou cívica.

A falta de familiaridade com o Hino Nacional, cujo ensino é obrigatório nos estabelecimentos públicos e privados do 1º e 2º graus, reflete-se não só na falta de respeito quando é executado, com os cidadãos andando de um lado para outro, como quando os milhões de espectadores de TV constatam que os jogadores de futebol do Brasil desconhecem completamente sua letra, pois menos o cantam do que o balbuciam.

No hasteamento ou no arriamento da Bandeira e na execução do Hino Nacional, a atitude correta é: “todos devem tomar atitude de respeito, os civis do sexo masculino com a cabeça descoberta e os militares em continência”.

A consciência de cidadania, de fazer parte da imensa família, que é a Pátria, é essencial à democracia e à liberdade; e nada como fugir do pessimismo vigente, do que de vez em quando ouvir o Hino Nacional e desfraldar a Bandeira brasileira, sem falsos ufanismos, nem manifestações piegas, mas com toda a consciência e determinação de que este país tão grande, tão rico e tão bonito, superará com firmeza e tranquilidade essas crises passageiras que não abalarão, nem um pouco, a nossa formação essencialmente democrática e livre”.

 

P.S.: Reproduzo este artigo, “ipsis litteris”, publicado no jornal “O Imparcial” de 11 de dezembro de 1993.

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