Select Page

CINZAS, CARNAVAL E CINZAS



Nasci lá na Vila

CINZAS, CARNAVAL E CINZAS

“Nasci lá na Vila,

Lá no Largo de São Benedito;

No casarão ali da esquina;

Fui retirado por Dona Corina,

Nasci lá na Vila

E por isso nem quero lembrar

Que um carnaval outrora bonito,

Que agora não pode jamais acabar.”

É vero! Eu nasci na Vila Xavier, naquele casarão da esquina da Avenida Santo Antonio com a Rua Cassiano Machado. Passei uns anos no centro e depois de casado, voltei à morar na Vila.

Desde a minha mais tenra idade, o meu caminho para a Casa da Nonna era sempre pela Avenida São Paulo. Ia contando os pontos interessantes depois do pontilhão: a Casa Meia Lua, a Loja do Barulho, a Alfaiataria Gouveia, a White Martins, a Loja da Lilláh; a Igreja de Santo Antonio, o Bar Ponto Chic onde em cima do portão lateral havia um letreiro: “BOCCIE”. Paro por aqui para encurtar as lágrimas.

Mas, hoje eu passei pelo Ponto Chic e, como vem acontecendo nestes últimos tempos, encontrei sentados na porta pelo lado de fora, bem comportadinhos o Salomão e o Binho Jorge. Estamos na véspera do Carnaval; lembrei-me de coisas recentes; do Bloco do Funil e da Banda do Fuá.

Mas lembrei-me também de coisas mais antigas e tentei imaginar o que deveriam estar dizendo neste momento em que ambos os blocos deixaram de dar o grito de carnaval de Araraquara, outros Salomões mais antigos, mas igualmente apaixonados pelo carnaval e,… pela Vila.

José Roberto Telarolli, apoiado numa nuvem, quebrando o silêncio com o som da batucada na sua caixinha de fósforos, cantarolava e com muita razão:“-Vila onde estão tuas pastoras, oi? Vila, onde estão seus tamborins?…”

Santo Antonio, comandando alguns anjos do Eden, comentava:“-É gozado! Agora que os meu ‘anjo’ são anjo de verdade, os ‘anjo’ lá da Vila não ‘sai’ com a nossa escola”.Que melancolia.

Na última vez que o bloco saiu vinha na frente um enorme caminhão de som, sob o qual esperneava ao som da marchinha de tema o primeiro folião. Não o monarca, mas o republicano, eleito pelo sufrágio universal. Ora, um prefeito de governo popular, tem que estar ao lado do seu povo e não há nada de mal nisso. Creio que o povo, em sua festa popular, se sente mais integrado com a presença do seu mais alto mandatário.

Aí, vem o Salomão e diz que foi pouca a ajuda oferecida; que não dava nem para pagar os seguranças, e por cautela o bloco não saiu. Mas“minha gentche”(como diria o Collor de Melo de triste lembrança), a Banda do Fuá, nos seus poucos anos de vida, se tornou patrimônio popular e patrimônio da Vila Xavier. Já consta dos anais da nossa história tanto é que eu só o comento hoje, porque já está em algum lugar da minha memória.

Pois é; “acabou o nosso carnaval; ninguém mais ouve cantar canções”. Mas o carnaval ainda nem começou, como acabou? Tá certo que ninguém mais ouve cantar canções; mas amanhã é carnaval!

Eu me lembro bem da rádio-vitrola que ficava na esquina da Rua Nove de Julho com a Avenida Duque de Caxias na Casa Barbieri. Me lembro, pouco mais acima na mesma 9 de Julho a Casa Santelli. Nestas duas lojas se disputavam os últimos lançamentos da Odeon, da RCA Victor, etc. Era, na época: “Me dá um dinheiro aí”; “Máscara Negra”; “As Pastorinhas”; “A cabeleira do Zezé”; “Atravessando o Deserto do Saara”; e tantas outras. Você ligava o rádio e meses antes já ouvia notícias sobre os concursos de marchinhas.

Não poderia deixar de lembrar da Casa King, dos meus tios Alfredo Olivi e Yolanda Zaniolo, rivalizando com o Salão do Rosário, pouco mais abaixo, na venda de: lança perfumes, máscaras, óculos para proteger os olhos, confetes em sacos de trinta quilos, caixas de serpentinas e de todos os produtos carnavalescos adquiridos na Loja da China em São Paulo.

Vocês sabem o que é “sangue de diabo”? Os mais novos, perguntem aos seus pais. Quem ainda, com sessenta anos ou mais, se lembra da fórmula do “sangue de Diabo”? Como era mesmo? Um comprimido de purgo-leite, amoníaco e água? Você enchia as bisnagas e jogava nos outros, manchava a sua roupa de vermelho, que depois sumia ao secar.

Por falar no demo, um querido amigo meu, o J.A., se fantasiava sempre de Drácula; tinha ainda as fantasias do Luccio e o fordinho do Caires.

Moçada! Principalmente a moçada da Vila. Eu proponho que depois do carnaval, nos fantasiemos de Fênix e aproveitando os erros do passado, deixando de lado as dores de cotovelo e as magoinhas, até certo ponto compreensíveis, vamos nos organizar para o próximo, isto é, se o mundo não acabar em 2.012. Até sugiro a paródia:

“Olha o calendário do seu Maia

Será que ele errou? Será que errou?

Não é que ele havia dito

Que o mundo ia se acabar

Quem acaba mesmo é a tristeza

Quando o carnaval chegar!

Olha a Banda do fuá!

Olha a Banda do Fuá!

Olha a Banda do Fuá,

Olha… a… banda… do… Fuá!

Últimos Vídeos

Loading...

Charge do Dia

Publicidade

Publicidade

Arquivos