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As lições de Kirchner

As lições de Kirchner

Por Matheus Santos

 

Independentemente de seu alinhamento ideológico ou partidário, é impossível, na defesa da boa política, não reconhecer o movimento de Cristina Fernández Kirchner para as eleições presidenciais de 2019 na Argentina. Liderando todas as pesquisas de intenção de voto, com distância considerável de seus adversários, em maio a ex-presidente da República Presidencialista da Argentina, anunciou a sua retirada na disputa para chefiar o Executivo federal e o apoio à Alberto Fernández, político próximo ao seu grupo, mas muito crítico de seus governos.

O resultado eleitoral apontado na PASO (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias) – eleições primárias que não tem efeito vinculante, mas servem para retirar do pleito de outubro os candidatos que não atingirem o mínimo de representatividade –, somado às declarações do atual Presidente Mauricio Macri e as decisões de seu governo, demonstram que a chapa Fernández-Fernández (Alberto e Cristina) caminha para a vitória ainda no primeiro turno.

Para além da importante questão eleitoral, Cristina, que consolidando essa vitória se torna a principal liderança latino-americana contra o ideário de subalternidade das nações do Sul e de defesa da soberania nacional, vence em dois outros campos tão ou mais importantes: o político-programático e o cognitivo.

Político-programático porque Kirchner não deixou que a eleição presidencial se resumisse à um mero plebiscito sobre o kirchnerismo (julgamento sobre os governos dela e de seu ex-marido, Néstor Kirchner, falecido em 2010). Cristina sabe que a rejeição de quem já governou o país por quatro mandatos presidenciais, mesmo com o desastre de Macri, é real e justificada – os erros foram muitos. Essa polarização rasa, sem discussão de projeto ou de futuro, tomaria todo o processo eleitoral e era a posta do atual Presidente, assim como muito bem fez Bolsonaro em 2018 contra o PT. Por pura e simples construção de narrativa eleitoral: sou ruim, mas ela é pior.

O risco de derrota da oposição argentina era evidente e claro. Cristina não mudou as peças do jogo, mas sim o tabuleiro, forçando Macri – só acompanhar suas últimas declarações – a abandonar seu projeto neoliberal e implementar políticas que defendam os trabalhadores e produtores argentinos, tentando reverter o quadro eleitoral.

No campo cognitivo, está a grande vitória de Cristina Kirchner, seu movimento retira a intelectualidade, os movimentos sociais, as organizações de defesa da sociedade, os produtores e os trabalhadores argentinos da defensiva. Cristina elimina o discurso derrotista de “resistência”, recompõe o espírito contra as lamentações. E, por que essa é a maior vitória? Porque ela independe do resultado eleitoral. Assim, em outubro, a chapa Fernández-Fernández pode sim ser derrotada por Mauricio Macri, desfazendo, inclusive, o avanço político-programático, mas a oposição política saberá o que fazer e como deve se portar. Ao passo que, ao olhar para o lado, vai enxergar duas grandes lideranças com programa pronto, sendo que a maior delas está disposta a colocar os interesses dos argentinos sobre os interesses de seu grupo e partido político. O exemplo mobiliza mais que qualquer discurso.

Essas são algumas lições que Cristina Kirchner deixa nesse processo eleitoral argentino para quem gosta e acompanha a política. O que nos faz retomar a ideia de defesa da Boa Política, aquela capaz de construir acordos políticos de interesse coletivo em diálogo com legítimos e honestos interesses individuais, de grupos, de setores e, até mesmo, de partidos políticos. Não há outra forma de estabelecermos correta governança da coisa pública, na democracia, se não pela Política, mas para isso os “fazedores de política” e todos que influenciam o jogo político – inclusive empresários – precisam abrir mão de suas narrativas corporativistas e mesquinhas, abrindo um flanco para o diálogo compromissado com o pacto constitucional, honesto com a verdade dos fatos e responsável com aqueles que não detém influência.

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