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Arte na via: Um absurdo no domingo



Ontem, em pleno domingo, uma legião de artistas me fizeram trocar de caminho, pois, interditaram a via expressa de Araraquara para fazer Arte. Isto mesmo, pra fazer Arte. Visual, sonora, circense, performática, e etc.Visualmente, contrariando a canção de Marisa Monte onde tudo ficou cinza ou o ilustre prefeito da capital Sr. Doriana que pintou de […]

Ontem, em pleno domingo, uma legião de artistas me fizeram trocar de caminho, pois, interditaram a via expressa de Araraquara para fazer Arte. Isto mesmo, pra fazer Arte. Visual, sonora, circense, performática, e etc.
Visualmente, contrariando a canção de Marisa Monte onde tudo ficou cinza ou o ilustre prefeito da capital Sr. Doriana que pintou de morte inúmeras expressões visuais, aqui, os artistas com diferentes técnicas e cores, representaram e se expressaram de diversas maneiras. Entre tantas, pinturas nos muros davam espaço as origens da cidade e seus povos nativos, deletérios tribais e grafismos a serem decifrados, influências picasianas deGuernicadenunciavam a força de Leviatã representado na figura de seus soldados, rostos coloridos, alegres, em duas e três dimensões abertos a significações diversas que flertam e alertam para o caos do século do século XXI, a denúncia social, a solidão, o possível e o ilimitável também tinham cor. Algumas personagens da parede desintegravam-se, outros escorriam suor e sangue negro. Tinha mais, havia os que retratavam o morro e o jovens grafiteiros, mandalas, máscaras africanas, a natureza e o alerta aos (des)respeito as minas, aos mano e as monas. Restam ainda outras visualidades poéticas no local que poderão gerar outras sensações se a visualização for feita em movimento, de bike, moto, carro, busão ou drones.
A atmosfera sonora era escolhida com o devido critério dos sobreviventes DJ’s que que colocam a estética musical acima dos modismos da indústria fonográfica. Cabe destacar, que a sonoridade também ficará exposta na pintura urbana do músico e trompetista X. O som ao vivo deu todo um charme ao evento, a banda composta por um casal de cantores que se agigantavam quando as canções exigiam acompanhados de umsamplerseletrônico, um sopro maroto nos arranjos e mais duas cordas, de guitarra e contrabaixo, que davam toda uma malevolência dançante as releituras musicais. O repertório escolhido a dedo trazia o melhor do reggae, rock e pop nacional e internacional. Depois de retornarem duas vezes com pedidos de mais um, concluíram a apresentação com o som da redenção de Bob Marley. Metaforicamente, era como se a profecia de Sérgio Sampaio no verso “um livro de poesia na gaveta não representa nada, lugar de poesia é na calçada” fosse ouvida e colocada na práxis, em plena morada do rei Sol.
A arte circense trouxe as crianças uma ludicidade participativa em que os artistas se mostraram como professores facilitadores dos pequeninos e cheios de vida artística. No pôr do sol, talvez dos portais irreais do previsível, eis que surgem malabaristas a desafiar as leis da gravidade e o perigo do fogo. Neste instante, trouxeram o elemento unificador de tudo, consolidando o encontro num sarau a céu aberto, de grátis. Literalmente, um crepúsculo lírico.
Os frequentadores, por sua vez, tão variados em questão de idade e estilos davam um tom de festa familiar amalucada. Das calçadas era impagável ver os rostos dos transeuntes em seus carros quase parando do outro lado da via a observar as artes nos murais. Dos bancos de trás dos carros, crianças arregalavam os olhos num espanto entre o acontecimento e a possibilidade deste na cidade. Crianças desenhavam com giz a rua tal qual Renato Russo em sua infância. Tudo era possível. Carrinhos de bebês também marcaram presença. Muitos jovens, de 15 a 80 anos, usavam o próprio corpo enquanto plataforma de arte com suas tatuagens, piercing e alargadores de orelha a mostra.
Comes e bebes, plantas e doces eram vendidos no vão lateral da tortuosa e poética arquitetura transitável da cidade.
Inconcluindo, que outros espaços sejam ocupados com Arte. Sempre. Assinado, um munícipe.

Raffa Paiva
Mestre em História (UNESP/ Assis), professor de História do Estado de São Paulo, músico, poeta, videomaker e Araraquarense a 10 meses.

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