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ANTONIO DE ANGOLA – I

No meio da tarde daquele nove de dezembro de 1.845, ainda em pleno sol de verão, num céu sem nuvens, não se ouvia o menor som nas terras de São Bento de Araraquara. As aves não piavam, o vento não soprava, a natureza parecia estar morta; o Sol quente comum no verão destes sertões parecia que tentava limpar pelo fogo que a tudo consome os últimos acontecimentos vividos naquele ajuntamento de casas. Pairava algo no ar.

Apesar de ser uma segunda-feira, a pacata Vila de Araraquara parecia estar morta. Na Rua do Comércio, as vendas estavam com as portas arriadas, parecia que ninguém queria fazer negócios. As residências com as janelas fechadas, nem um cão nas ruas, até as galinhas havia desaparecido, um silêncio mortal. E era um silêncio mortal!

Às vezes, uma lufada de vento forte arremessada de encontro aos Jacarandás que emergiam na borda do pastinho, produzia assobios aterrorizantes, fazendo gelar até aos ossos o amedrontado povo desta freguesia. Dentro das casas, as crianças se escondiam debaixo dos cobertores e isto sob o efeito do verão bravo provocava suores, mas estes eram frios. Os mais velhos manipulavam as contas dos terços, alguns queimavam palmas de Santa Rita, benzidas no último domingo de ramos. Araraquara estava morta ou melhor, escondida e amedrontada, como se morta estivesse…

De repente, houve-se o sino da Igrejinha de São Bento.Batia aquelas badaladas tristes, compassadas, uma, duas, três,… Percebeu-se logo que dobravam à finados.Alguém tinha tido o disparate de acionar os sinos; uma infâmia; uma provocação, uma afronta aos ilustres moradores da freguesia.

Quem teria sido este temerário que ousava quebrar aquele silêncio sepulcral ainda mais numa ocasião dessas? Que desaforo! Não deve ser o padre, pois apesar de padre ele tem,… e quem tem … tem medo.Será que invadiram a capela?

Padre Justino Ferreira da Rosa era o quinto vigário de Araraquara e havia assumido o paroquiato em maio deste mesmo ano, sucedendo ao padre João Hygino da Silva, que pouco tempo aqui ficou.A gente da terratratava-o sempre com cordialidade, mandando-lhe óbulos e suprimentos, ovos, galinha gorda, fubá, café e rapadura, e comparecia sempre à missa das oito aos domingos e à reza diária das sete da noite.

Diziam, que tamanha religiosidade era mais para pedir perdão dos seus pecados, e eram muitos, do que para praticara religião que cultua e tenta seguir os ensinamentos de um homem que pregou a paz e a fraternidade entre os homens do mundo, dando a sua própria vida por este ideal.Engraçado; por incrível que pareça, pregara a paz e por causa disso, pregaram-lhe numa cruz.

Por outro lado, fazer o que, nesta vilinha em 1.845?

Padre Justino era pastor e apacentava muito bem as suas ovelhas, afinal todos, bons ou maus, são filhos de um mesmo pai que perdoa porque é bom, mas que castiga porque é justo. Deus jamais faria diferença, pensou, e cada um é responsável por aquilo que faz e algum dia vai prestar contas ao Criador.

Por isso não teve dúvidas e, arcando com a sua responsabilidade de sacerdote, encorajado e protegido por seus anjos guardiões, venceu o medo que também tinha dos donos do poder e acionou a corda do sino uma, duas, três,… umas quinze vezes, mas depois, aceitou os conselhos dos mesmos anjos da guarda e silenciou, indo ler o seu breviário ajoelhado diante do altar mor que ostentava uma magnífica imagem de São Benedetto da Nórcia, entalhada em Ébano por um conhecido escultor português; um presente de Pedro José Neto aos habitantes da Villa, ao fundar a capelinha.

Ao longe, após a penosa subida das margens do Córrego do Ouro, pouco antes de sua junção com as águas, àquela época ligeiramente turvas do Córrego da Servidão, três homens debaixo de seus grossos guarda-pós tecidos em lâ, pretos e ensebados, chapéus atolados, cavalgando as suas mulas, seguem o rumo da Vila de Constituição, hoje Piracicaba.

Tinham cumprido o seu terrível trabalho. Na sua concepção apenas mais um trabalho comum, sem nenhum remorso, ainda mais porque um negro, … ora, o que valia um negro? Ainda mais aquele negro.

“-Vou gastar tudo na zona de São Carlos”, pensava o primeiro;“-Agora sim!”, pensava o segundo,“-Vô tê dinheiro pra vortá prá minha ardeia e acertá as conta com aquele disgramado, fio d`uma égua”.“- Oôôôô cachaça fia di uma puta!”, resmungava o terceiro, cuspindo aquele caldo grosso, turvado pelo alcatrão do fumo que mascava e atirando longe a garrafa que acabava de emborcar.“-Vai sê ruim assim na puta que pariu! Vilinha de merda, num sabe nem fazê cachaça. Tamém eles num sabe nem matá. É por isso que ainda é uma vilinha de merda. Nun vai crescê nunca”.

“- Ditinho!Ditinho! Vem aqui, negrinho safado! Vai na caso do Coronel Pinto de Arruda e fala prá ele que aquele padreco endoidou de vez; tá nos desafiando e cometendo um sacrilégio. Fala prá ele mandá a jagunçada calá a boca daquele corvo.

“-Mi adescurpe, seu Coroné, mais eu num vô não; careço de medo. O isprito du Antonho inda ta lá, uivando e balançando; … ieu tenho medo, seu Coroné, muito medo! Num manda ieu não. Manda o Bastião qui faiz as coisa i sabe lidá com as arma du prugatório!

(Continua sexta-feira próxima)

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Após serem publicados no “O Imparcial”, estas crônicas também são publicadas no nosso blog; visite: ‘familiazanioloblogspot.com”.

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