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A política dos favores

Anderson Piva

O telefone toca no gabinete do vereador Paulo, do Partido da Direita. O assessor atende. Do outro lado da linha uma voz solicita uma contribuição para o evento no bairro: “Vai ajudar ou vou ter que ‘queimar o filme’ do vereador Paulo aqui na comunidade?”
Logo depois toca o telefone no gabinete ao lado – o do vereador João, do Partido da Esquerda. A voz, ainda intimidadora, repete a chantagem ao assessor: “Ou contribui com nosso evento, ou vai perder voto aqui no bairro”.
O vereador Manuel, Partido do Centro, também tem um assessor. O telefone do seu gabinete também toca. A voz, do outro lado da linha, insiste: “Ou ajuda, ou já sabe”.
Essa pequena história é a ilustração de uma situação real. E que se repete todos os dias nas Câmaras de Vereadores de todo o país. Contribuições para eventos; buracos nas ruas que devem ser tapados; árvores que precisam ser cortadas; “perdão” de contas de águas e de luz caras demais; e até mesmo dentaduras! Tudo isso é solicitado pelas pessoas aos vereadores. E, em geral, as solicitações são atendidas. Afinal, ninguém quer perder votos.
O problema dessa prática, que faz com que as pessoas enxerguem os seus vereadores como colegas de quem se pode cobrar favores é que ela desvirtua completamente as funções para as quais o vereador foi eleito. O político passa a utilizar o seu mandato para fazer pequenos agrados pessoais e as pessoas contempladas não tem o menor problema em aceitá-los de bom grado. Afinal, como cobrar uma mentalidade republicana de pessoas cujas carências materiais se sobrepõem aos imperativos da “boa prática” política?
Não há problema em que as pessoas procurem os seus representantes, no legislativo e no executivo, para cobrá-los. O que não pode haver é o uso do mandato para benefícios particulares: nem do lado dos que pedem, nem dos que concedem os favores.
Agora que os pré-candidatos a prefeito e a vereador estão sendo oficializados nas convenções partidárias é bom ficar de olho nos políticos que, uma vez eleitos, podem propor o fim de práticas como essas.
Uma lei que proíba a concessão de favores a particulares (nada de o vereador xis dar dentaduras ou mandar cortar árvores!) e que crie um órgão específico, dentro da Câmara, para ouvir as queixas e demandas da população (sem personalismos) seria um passo importante para que as práticas republicanas, tão em baixa no Brasil, comecem a, pelo menos, ser ensaiadas em nossa cidade.
*Anderson Piva é sociólogo

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