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A outra querida mãe



Luís Carlos Bedran* O único tempo que se pode registrar na memória, pela escrita ou não, é o passado. Porque, assim que se pensa ou se age num momento presente, ele, de imediato, já deixa de sê-lo e se transforma em passado. Pois o futuro inexiste. Por isso é impossível falar sobre o presente por […]

Luís Carlos Bedran*

O único tempo que se pode registrar na memória, pela escrita ou não, é o
passado. Porque, assim que se pensa ou se age num momento presente, ele, de imediato,
já deixa de sê-lo e se transforma em passado. Pois o futuro inexiste. Por isso é
impossível falar sobre o presente por sua rápida transformação e mutabilidade, mesmo
aquele o mais próximo possível da realidade.
O que me faz recordar, a propósito do Dia das Mães, de uma mulher, (com todo
respeito), baixinha, filha de italianos da Calábria, que cuidou dos filhos e filhas, das
netas e até da bisneta, sempre com muito carinho, amor e, sobretudo sem nenhuma
preguiça.
Com a maior disposição, a enfrentar aqueles percalços da vida cotidiana de uma
família que não era rica, que tinha de lutar bastante pela sua sobrevivência e que
conseguiu dar formação universitária a todos eles. Ela, tal como o marido, trabalhador
braçal, que apenas possuíam o curso primário.
Não era como muitas das mães modernas que têm de trabalhar fora, quase não
têm tempo de fazer comida em casa, cuidar das crianças, levá-las à escola de moto, de
carro, proporcionar-lhes cursos paralelos à sua formação, uma loucura. E depois,
entregues, exaustas, não veem a hora de descansar para assistir TV, se comunicar com o
celular pelo Facebook com os amigos e amigas e, por fim, ainda dar uns beijinhos no
marido.
É verdade que ela, depois de irrigar suas plantinhas no quintal à tarde, sentava-se
em frente à televisão para assistir ao noticiário e as novelas que acompanhava, não sem
antes ler o jornal e, nos intervalos, fazer palavras cruzadas.
Inteligente, sabia lidar com as pessoas e sempre lhes transmitia palavras de
otimismo. Era querida pelos vizinhos, também gente humilde. Muito prestativa. O que
precisavam, lá estava ela para ajudá-los. Era do tempo em que as crianças brincavam na
rua sem medo; o das cadeiras nas calçadas, para atualizar as conversas, saber das
novidades, dos problemas e das alegrias de cada um.
Ouvia, enquanto passava roupa, as novelas pelo rádio, “Gerônimo, O herói do
sertão”, “O Direito de Nascer”. Nunca teve férias. As viagens que fez foi para visitar os
parentes numa cidade vizinha. Quando solteira chegou a trabalhar numa fábrica.
Conheceu o mar já idosa. Deslumbrou-se. Divertiu-se.
Nunca percebi reclamar da vida. Passou por alegrias e tristezas. Os filhos e as
filhas casaram-se; uns separaram-se, outros mantiveram seus casamentos. Depois
vieram os netos e netas e bisnetos. Mesmo cansada, sempre manteve o ânimo e a
alegria. Pelo menos não aparentava tristezas.

Lia com o maior interesse as crônicas que eu escrevia n’“O Imparcial” e dizia
que gostava delas. Inseria-se no rol das minhas leitoras preferidas. Poderia achar que ela
dizia isso para agradar-me. Mas não. Percebia que sua amabilidade era sincera,
espontânea.
Em vida homenageei-a com uma crônica. Foi o mínimo que poderia ter feito a
ela, de quem gostava muito. A minha segunda mãe, D. Nena, minha sogra.
De quem me recordo, com muita saudade, neste Dia das Mães.

*Sociólogo

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