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A namorada polonesa



Conheci uma jovem que nasceu logo depois da Segunda Grande Guerra na Polônia, numa cidade que não era Varsóvia, a capital. Não sei se em Lödz ou Cracóvia ou numa outra pequena cidade qualquer do interior, de nome esquisito, complicado, nem me lembro mais, faz tanto tempo. Conheci-a através do Pen Clube, uma antiga organização […]

• Luís Carlos Bedran


Conheci uma jovem que nasceu logo depois da Segunda Grande Guerra na Polônia, numa cidade que não era Varsóvia, a capital. Não sei se em Lödz ou Cracóvia ou numa outra pequena cidade qualquer do interior, de nome esquisito, complicado, nem me lembro mais, faz tanto tempo.

Aliás, nem mesmo consigo recordar-me de seu difícil nome; mui vagamente de seu rosto, numa foto 3 x 4: um tanto rechonchudo e muito branco, como parecem ser as polonesas. Fico na dúvida agora se essa lembrança não é fruto de mera imaginação.

Conheci-a através do Pen Clube, uma antiga organização internacional que facilitava e mediava a troca de correspondências, entre jovens de ambos os sexos, dos mais diversos países; uma espécie de Facebook atual, bem primitivo, claro. Recebi uma carta dela, talvez em inglês, a língua universal. Devo-lhe também ter mandado a minha resposta.

E ficou por aí mesmo. Não houve mais troca de correspondências, talvez para dar início a um possível namoro a distância, coisa de adolescente. Platônico, certamente.

Nunca mais encontrei a carta; perdi a foto. De vez em quando, a rememorar o passado, recordo-me daquela moça que também teria se interessado em conhecer um jovem brasileiro, da distante América. O que teria lhe acontecido? Se ainda estiver viva, talvez tenha se casado, possivelmente mãe de vários filhos e avó de muitos netos. Um mistério que jamais será desvendado.

Mas o fato é que, depois disso, por curiosidade, nunca mais deixei de pensar na Polônia, incrustado pelo lado oriental, na época, pelos países pertencentes à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, Ucrânia e Tchecoslováquia, e pelo lado ocidental pela Alemanha. Atacado inicialmente pelos nazistas de Hitler e depois pelos comunistas da URSS, o povo polonês foi um dos que mais sofreram na Segunda Guerra.

Milhares e milhares de heróis combatentes poloneses foram massacrados e dizimados pelas tropas nazistas, fortemente armadas, em combates de forças desiguais, como modernos blindados contra cavalos. Um país que foi palco de campos de concentração, como Auschwitz, de triste memória. Basta relembrar a tragédia do gueto de Varsóvia, onde milhares de judeus lá confinados foram mortos. Interessante é que estes não eram queridos, mas apenas tolerados naquele país, de formação profundamente católica.

Polônia, onde nasceram personalidades famosas, como o presidente o pianista e compositor Paderewsky e o também músico e compositor, Chopin; o grande escritor britânico de origem polonesa, Joseph Conrad; o papa João Paulo II; o operário, fundador do Partido Solidariedade, Lech Walesa, entre outros, pessoas representativas que formaram o pensamento europeu e que ainda hoje passa por profundas transformações políticas, embora faça parte da União Europeia.

Também não podemos deixar de recordar o escritor e jornalista — e que participou da resistência contra os nazistas — Andrzej Szczypiorski que relatou em seu livro “A Bela Senhora Seidenman”, as dificuldades por que passou aquele país com a redemocratização do pós-guerra; o antigo escritor, Jan Potocki, do estranho “Manuscrito Encontrado em Zaragoza”; Henrik Sienkiewicz, do conhecido “Quo Vadis?”, que até foi objeto de filme; o cineasta Andrzej Wajda, recentemente falecido, além do atuante
Roman Polansky, de origem polaca, intelectuais que honraram e honram aquela nação.

E então, ao longo dos anos, tudo por causa daquela namorada virtual, continuei a me interessar vivamente pelo povo polonês. De vez em quando ainda fico a imaginar como ela deve ter sofrido com a miséria do pós-guerra, com as dificuldades pelas quais ela passou naquele país pressionado por aquelas duas grandes potências bélicas, tal como relatado recentemente pelo jornalista e historiador inglês Max Hastings, em seu livro “Inferno – O mundo em guerra – 1939-1945”.

E quando nós nos queixamos dos nossos problemas, não poderia deixar de compará-los com aqueles por que já passaram os países que sofreram com as duas guerras mundiais, como a Polônia, insignificantes perto deles.

A curiosidade, porém, ainda permanece: o que teria acontecido com a minha namorada polonesa?

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