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A MORTE



Tito Cassoni O que é a morte? Difícil responder. Para muitos pode ser o fim; para outros o começo. Tudo depende das suas convicções filosóficas. Ninguém pode viver sem essas convicções, sejam elas científicas ou conjecturais que vão lhe orientar vida afora, ou vida a dentro. Nada sei sobre a morte. Só sei que vida […]

Tito Cassoni

O que é a morte? Difícil responder. Para muitos pode ser o
fim; para outros o começo. Tudo depende das suas convicções
filosóficas. Ninguém pode viver sem essas convicções, sejam elas
científicas ou conjecturais que vão lhe orientar vida afora, ou
vida a dentro.
Nada sei sobre a morte. Só sei que vida e morte andam juntas.
Uma não existe sem a outra e elas se completam. Os médicos
que convivem com esse infortúnio diariamente a explicam
cientificamente como sendo uma parada cardiorrespiratória ou
uma parada cerebral com encefalograma plano. De qualquer
maneira, caracteriza-se pelo que chamamos “fim da vida”.
Terrena ou não, dependendo dos conceitos de cada um. Para a
vida continuar após a morte é preciso conjecturar. Pois provas
científicas não há. Isso se chama metafísica, deixa de ser ciência.
Pode até ser verdade, mas continua sendo uma presunção. Uma
especulação otimista. Quem não a quer? A base da metafísica
chama-se fé. E o que é a fé? É uma crença. H.L. Mencken,
escritor americano (1880-1956), cético, definiu a fé “como a
crença ilógica na ocorrência do impossível”. Deve ser doloroso
para o médico, que convive mais com as mortes dos outros do
que com a sua própria, ver faltar-lhe meios científicos e
tecnológicos para impedir o que antevê.
A morte não é uma doença, mas uma sequela que se
caracteriza pela diminuição da energia vital aquém de um limite
mínimo admissível para proporcionar a vida e provocada por
traumatismos violentos ou doenças que enfraquecem a
capacitação de retenção dessa energia, seja ela parcial ou total.
O escritor francês Anatole France (1844-1924), cético,
afirmou, admirado, como os religiosos podem querer a
eternidade, se não sabem o que fazer com o pouco tempo de

vida e sua monotonia aqui na terra, mas insistem em querer a
eternidade! Assim, muitos humanos vão jogar baralho, pescar ou
beber nos bares da vida para passar o tempo, mas querem a
eternidade!
É difícil de entender. E os ateus como ficam? Não ficam. Também
vão; mas como explicam a morte?
Para estes a morte nada mais é que a fuga da energia vital que
chegou até ele doada pelos pais e que vai ser gasta no decorrer
da vida através da perda da capacidade de retê-la em seu corpo,
proveniente do seu desgaste por traumatismos ou doenças
predatórias a esse sistema. Dependemos da energia para nosso
processo vital. A 1ª lei da termodinâmica diz que a energia não
pode ser destruída e nem criada. Os organismos vivos só podem
transformar uma modalidade de energia em outra. O tipo de
energia que as células incorporam é denominada de “energia
livre”, que pode ser definida como a energia capaz de produzir
trabalho em condições de temperatura e pressão baixas e
constantes. Em seguida repõem ao meio ambiente uma
quantidade equivalente de energia em outra forma,
principalmente, de calor, ou vida que se “randomiza”, isto é, se
distribui ao acaso, no meio ambiente, aumentando em
consequência sua desordem, ou seja sua “entropia”. A energia
nos seres vivos não pode ser usada diretamente, apenas
transformada em outra, mais própria à vida. Quando, por
qualquer motivo, essa “energia vital” escapa, sem a sua
subsequente reposição estável chega a morte. Não basta a
reposição dessa energia, via alimentação. É necessário retê-la. É
justamente isso que perdemos ao longo da vida. Não confundir
“energia vital” com “força vital” dos alquimistas.
A teoria da “Energia Vital” poderia ser melhor explicada
comparando a vida com uma pilha. Esta foi feita de tal maneira
que aprisiona um tipo de energia. Se usamo-la, com o tempo, ela
se desgasta e acaba. Se não a usarmos ela acaba também. Toda

energia é como a democracia, precisa de liberdade. Se furarmos
essa pilha com um tiro, sua energia se esvai por essa fenda e a
pilha morre. Isto por que, com o tiro, a sua estrutura física para
conservar a energia foi destruída. O envelhecimento e a morte
pessoal nada mais é que a fuga dessa energia sem a sua
reposição adequada, tanto quantitativa quanto
qualitativamente. Os religiosos chamam essa “energia vital” de
alma. Para os céticos é apenas energia.
Na nossa juventude o nosso corpo é novo com pouco uso e
está mais conservado e melhor adaptado para reter essa energia.
Com o passar do tempo vamos perdendo essa capacidade e
nosso corpo vai se desgastando pelas intempéries que o nosso
governo oferece e se desgasta rapidamente. Com a senectude
resta um mínimo de energia vital. Quanto mais próxima do limiar
mínimo exigido para a vida permanecer, mais próximo da morte
estaremos. Essa aproximação pode ser sentida e pressentida
pelo seu possuidor. A nossa energia vital é oriunda da energia
química que provém dos alimentos e que produz calor a baixa
pressão e temperatura. A energia que sai constantemente de
nosso corpo tem que ser reposta diariamente através da
alimentação. O idoso come pouco, mas o suficiente para sua
pouca retenção e provisão energética. Em bioquímica, isso se
chama “catabolismo”. Com a idade o nosso organismo perde a
capacidade de reter energia e sua suplementação na
alimentação poderá ser inútil e até deletéria. Há séculos o
homem tenta provar a existência da alma e sua eternidade. Em
vão. Mesmo assim a crença se sobrepõem à realidade. Todos nós
precisamos de ilusão para viver. Caso contrário a vida seria
insuportável! E depois da nossa morte o que acontece? Nada.
Simplesmente nada. Toda nossa energia que estava aprisionada
em nosso corpo se esvai e deixa de lado a carcaça que a
suportou. Esta é encaminhada aos vermes ou ao fogo. A energia
que se evolou de um corpo vai ficar à disposição para novas

empreitadas e diatribes vitais ou não. Portanto, antes do fim,
aproveite a vida, de acordo com seu capital, claro. “O que se leva
dessa vida é a vida que se leva”, diz um ditado popular ou, como
disse o cineasta americano Woody Allen: “Viva cada dia como se
fosse o último. Um dia você acerta.
Obs. Esta crônica não teve o objetivo de convencer ninguém, muito menos de contar a
verdade. Simplesmente teve o pretencioso objetivo de ser uma simples crônica.

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