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A grande passeata

A grande passeata

Luís Carlos Bedran *
Nos tempos de antanho acompanhei de longe uma passeata em São Paulo. Não me lembro mais se foi nessa ou noutra a que culminou na morte de um estudante na Rua Maria Antonia, em frente da então Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP e que, depois disso, foi fechada.
Lembro-me de que os caminhões estavam cheios de soldados do Exército e os outros, nas ruas, a pé, tentavam dispersar seus acompanhantes a cassetete: era um corre-corre danado. Escondi-me sob a marquise de uma loja, assim como outros populares e, depois, covarde ou cautelosamente, fui-me embora, pois não podia ser preso porque, caso contrário, como estudante de Ciências Sociais na Filosofia, não somente perderia meu emprego no Banco do Brasil, como também nunca mais conseguiria prestar o concurso que almejava, como advogado que já era e que inevitavelmente seria fichado pelo DOPS, que era quem fornecia, após investigações, o temível atestado ideológico.
A consequência disso tudo foi a de que não pude mais lá estudar porque o curso foi para muito longe do centro, para a Cidade Universitária. Depois disso já se sabe: passeatas foram proibidas e somente então, depois da volta do Estado democrático de Direito, que a liberdade de ir e vir foi normalizada, é que se pôde, pacificamente, delas participar, como aquela do impeachment de Collor.
Hoje, qualquer pretexto pode servir para os populares irem às ruas protestar contra tudo, até mesmo contra um mínimo aumento de centavos da tarifa de ônibus, como aquelas que ocorreram em 2013 em todo o País. E viva a democracia! Grandes mobilizações são mais comuns nas capitais e raras nas cidades do interior, onde quase todos se conhecem, o que pode haver constrangimentos.
Mas agora está se prevendo uma grande mobilização para o dia 15 de março (os famosos idos de março…) nas grandes e pequenas cidades, contra a atual conjuntura. Uns dizem que será contra a presidente, a favor de seu impeachment; outros contra os políticos corruptos, da roubalheira e do sucateamento da Petrobrás; muitos, indignados, contra o aumento da inflação, do preço da gasolina, do diesel, dos alimentos e da energia elétrica; a extrema maioria, no entanto, será a favor do Brasil. De um país melhor.
Pois é dessa que pretendo participar como protesto, mesmo que chova. E prevenido, talvez levarei um guarda-chuva… Porque agora já não tenho mais medo, já não tenho mais nada a perder. Pois esse protesto é muito menos por mim, do que pelas futuras gerações, pelos nossos filhos e netos, que não podem sofrer o que já sofremos no passado.
Eles têm todo o direito de viver uma vida melhor, num país pujante como o nosso e que tem sido saqueado por bandidos impunemente. Mas ainda devemos continuar a acreditar em nossas instituições republicanas: Forças Armadas, Ministério Público, Polícia Federal e Poder Judiciário. Até mesmo nos bons políticos honestos e idealistas.
O que não podemos é nos omitir e ficar calados contra o caos que se avizinha.
* Sociólogo

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