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A força do espírito

Luís Carlos Bedran*

Ultimamente ando tão preocupado, mas tão preocupado com alguns acontecimentos que resolvi pedir conselhos a um amigo espírita, que leva muito a sério sua religião. O espiritismo, que é “um sistema filosófico, cujo eixo principal é a crença na reencarnação”, também é um sistema complexo de pensamento: um “mix” de filosofia, ciência e religião ao mesmo tempo. No Brasil, mais religião que ciência ou filosofia.

Seu fundador, Léon Hippolyte Denizard Rivail (1804-69), mais conhecido como Allan Kardec, a partir de sua obra principal, “O Livro dos Espíritos”, tem influenciado um segmento privilegiado de nossa sociedade, descrente da Igreja Católica e do chamado Protestantismo e do Pentecostalismo. São pessoas que, oriundas da classe média urbana, não conseguiram encontrar explicações razoáveis nessas religiões que os levassem a uma tão sonhada paz espiritual: encontraram-na no espiritismo e estão muito contentes com ele.

Pois bem. A questão é a seguinte: a de saber se a força espiritual de alguém — se é que isso existe — dirigida tanto para o bem, quanto para o mal, pode acarretar consequências inimagináveis, mesmo não queridas, até involuntárias. A de saber se o resultado de um pensamento direcionado a alguém pode sem mesmo querer, prejudicá-lo de alguma forma, ou até mesmo beneficiá-lo.

Dizem que a fé remove montanhas. Bernard Shaw, o famoso teatrólogo inglês, ironicamente afirmava que acreditava na fé, sendo ela a marca de um trator possante e que então poderia mesmo não só remover montanhas, mas até destruí-las.

Existe tanta teoria a esse respeito, que se deve distingui-la do charlatanismo, puro e simples. Há estudos nas universidades russas sobre parapsicologia, que dizem ser uma ciência; ou então sobre a aura que todo ser humano, animal ou planta possui; sobre o holograma, sobre a energia positiva e sobre o ectoplasma.

Dizem também que alguém, passando por uma tragédia pessoal e familiar, pode, não só ficar doente fisicamente, como também, se tiver uma verdadeira força espiritual interior, apesar da doença grave, conseguir conviver com ela numa “boa” e, mais do que isso, principalmente, até superá-la e eliminá-la do
organismo. O câncer, por exemplo. Alguns médicos creem firmemente nisso e têm até estudos científicos a respeito, constatando que há regressão da doença.

Um escritor famoso, muito lido antigamente, Medeiros e Albuquerque, escreveu um livro no qual relatava suas experiências sobre a força do pensamento, mas com um objetivo bem mais atraente e interesseiro: o de conquistar mulheres. Diz ele que costumava ir aos cinemas em Paris, muito mais frequentados por elas do que pelos homens, pois estes, em sua grande maioria, estavam no front da batalha na Primeira Guerra Mundial. Aí concentrava seu pensamento na nuca da mulher escolhida e ela, então já um pouco perturbada, deixava-se conquistar por ele, sem quaisquer maiores resistências. Um exagero, evidentemente.

Num outro livro, de outro autor, afirmava-se sobre o mistério das enormes pedras em que foram edificadas as pirâmides egípcias e que eram levadas às alturas, não pela força física dos escravos, mas tão-somente pela força do pensamento dos seus construtores, arquitetos e sacerdotes. Outro exagero, evidentemente.

Diz meu amigo espírita que realmente existe essa tal força, que somente alguns privilegiados a possuem, e que são os chamados médiuns, que procuram transmitir apenas energia espiritual positiva àqueles que dela necessitam. A energia negativa é repudiada e eles sempre procuram ajudar os outros, nunca
prejudicá-los. São espíritos de luz, diferentes daqueles que consideram como membros do chamado “baixo espiritismo”, praticado na quimbanda, que reconhece a existência do chamado “espírito das trevas”, que se utiliza da magia negra para prejudicar as pessoas.

Tudo isso é um mistério, ainda impenetrável. Como toda religião.

Continuo com minhas dúvidas, sérias dúvidas, pois ainda não consegui uma explicação razoável e convincente. E tudo isso teve origem quando certa vez escrevi duas crônicas sobre duas pessoas públicas, elogiando-as pelos seus sentimentos fraternos. Uma por ter chorado em público; outra por ter-lhe aconselhado a seguir o caminho trilhado por seu pai, um homem virtuoso. Bons pensamentos, evidentemente, mas que, ao contrário, resultaram em desgraças pessoais para ambos. Será que tudo não passou de mera coincidência?

Não obstante, agora fico seriamente preocupado. Continuo ou não escrever sobre pessoas, sobre seus sentimentos?

*Sociólogo

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