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A banalização do perdão

• Luís Carlos Bedran

Vocês já perceberam quantas pessoas, até mesmo as jurídicas, no País e em todo mundo, nesses últimos tempos, têm feito tantos pedidos públicos e privados de perdão sobre tudo aquilo que entenderam que não era certo ou até mesmo criminoso? Seria isso considerado como uma atitude politicamente correta?

Pois é só abrir os jornais ou entrar na internet para constatar que a indagação não deixa de ser pertinente, porque volta e meia o noticiário informa sobre isso. Mais ainda: tais atos têm sido tão comuns e tão corriqueiros, usam e abusam tanto do valor moral do perdão, esse mecanismo tão importante para evitar ódios, rancores, antagonismos ou solucionar conflitos que poderiam acarretar dissabores ao convívio humano, essa excepcional vantagem que conseguimos consolidar através dos séculos, que sequer nos preocupamos nem atinamos em entrar em detalhes para procurar conhecer motivos pelos quais isso tem acontecido. Virou rotina, tornou-se banal.

É o que pretendemos fazer aqui e agora em breves palavras: tentar saber a razão disso tudo. Tentar esclarecer, na medida do possível — o que demandaria vastos estudos e interpretações que não cabem aqui —, pois não podemos pacificamente nos conformar com isso, tão generalizado está: a aparentar ou mesmo a perceber realmente quanta hipocrisia existe na prática abusiva do perdão, principalmente no que se refere a tradicionais instituições (mas não excluídas as próprias pessoas no cotidiano da vida).

Embora todos nós já saibamos o que seja perdão, é preciso ainda tentar melhor explicá-lo para que possamos chegar à conclusão de que a banalização de seu uso nos leva inevitavelmente a pensar quão raros são os pedidos verdadeiros ou se realmente são tão eficazes como se presume.

O perdão foi uma das grandes ideias, inicialmente de índole religiosa, criadas por Jesus Cristo para, na época, desafiar os romanos em Israel. Contudo foi — e continua sendo até hoje — uma maneira tão brilhante e eficaz, com vantajosos efeitos práticos, que se espalhou para toda a humanidade, a ponto de ser praticado também por instituições como o Estado ou a Igreja, entre outras, e até mesmo por quem não é cristão, muito menos religioso. Os gregos sequer o conheciam; os romanos também, mas para evitar danos maiores, estes poupavam os vencidos ou aplicavam o direito de comutar a pena de morte. Apenas isso.

Perdoar significa desculpar, tirar a culpa de alguém que praticou um ato reprovável, para ser eliminado completamente, tanto do pensamento daquele que perdoou, quanto do perdoado, independentemente de ele ser aceito ou não, ou de ser verdadeiro ou falso.

Passa-se uma borracha definitiva naquilo que aconteceu; é passado. Se alguém não for perdoado, então de alguma forma deve ser punido, pois, como diz a filósofa Hannah Arendt, in “A condição humana”, “é significativo que os homens não possam perdoar aquilo que não podem punir, nem punir o que é imperdoável”. Não se trata aqui de fazer digressões sobre o assunto nas áreas do direito (como quando abrange os conceitos de anistia e prescrição), nem nas de religião, da psicologia comportamental, ou da política, mas sim, sobretudo, em seu aspecto filosófico, muito embora sejam profundamente interligadas.

Num esbarro rápido e ocasional na rua entre pessoas, por exemplo, pede-se perdão pelo transtorno, mesmo que não se seja perdoado, mas provou-se ser um ato de civilidade, uma condição fundamental para que se possa viver em paz na sociedade, sem grandes pesos de consciência. Mas o ato de perdoar tanto pode ser autêntico como falso, assim como aquele que presumivelmente o aceita tanto pode ser verdadeiro ou não.

O que importa mesmo é menos aceitar o perdão, quanto o ato de perdoar, e isso somente ocorre entre pessoas. É por isso que o filósofo Jacques Derrida afirma que o perdão não pertence à esfera política nem à jurídica, pois quando entidades pedem perdão, este já está descaracterizado, pois incompatível o punir e o perdoar, cf. esclarece na Revista Cult, 2010, a filósofa Cláudia Perrone-Moisés em artigo sob o título “A justiça e o perdão em Jacques Derrida”.

O que as pessoas jurídicas têm feito, tanto quanto os políticos e importantes cidadãos brasileiros flagrados em ‘malfeitos’ nos últimos tempos, é pedirem perdão publicamente para que os fatos que praticaram sejam esquecidos para sempre. Pedir é fácil, pode ser sincero ou não. Difícil mesmo é aceitá-lo pelos eleitores ou por aquelas pessoas que acreditavam em suas entidades, tais como a Igreja com relação aos padres pedófilos ou à Inquisição; com a escravidão em nosso país ou então sobre o genocídio praticado contra os judeus na Alemanha de Hitler.

Mas o pior de tudo é o seu uso e abuso, banalizado por pessoas e instituições, como se, depois disso, tudo poderá esquecido “ad aeternum”. Embora seja um eficaz instrumento para a manutenção da paz social e individual e que visa ao esquecimento de um tenebroso passado, onde tudo será ‘zerado’, e onde a vida recomeçará novamente sem remorsos nem arrependimentos, na verdade, antes de tudo, devemos racionalmente evitar acontecer os fatos que nos causam prejuízos e não depois ficar a tentar remediá-los com esse excelente instrumento de convívio social inventado por Cristo há mais de 2000 anos.

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